4.2.07
lastro?
madalena pestana
o vento atirou para um canto as folhas velhas. mortas. não um varredor da câmara. o maior varredor - o vento. piso-as ao passar. têm som de papel envelhecido. cartas limpas de letras que se deitaram fora para nunca haver tentação de as escrever.
sigo. lenta. trago algum peso a mais. ainda. não consegui que o vento varresse dentro a mim. como num chão. terei de ir atirando fora o lastro, de caminho. para não me doerem as costas nas subidas.
pior. pior é também doer deixar o lastro. nem todo ele pesado. nem todo ele morto. como as folhas.
enquanto penso nisto surge uma tonta vontade de me rir. de quê? ora, de mim. é sempre de mim. a cómica da fita! nunca consigo ficar muito tempo zangada com a humanidade. só comigo.
ainda estou zangada comigo e rio-me disso. tão exigente e a caminho da morte... estupidez!
quem cá ficar que feche a porta dos sonhos se eu a deixar aberta. para quê esta mania de perfeição nos actos. no interagir. nas relações?
depois. depois serei mais uma folha seca com som de papel em dia de sol e nada mais. ou nem isso. nem isso.
agora sim. começo a rir à gargalhada.
olha azedas ali! vou trincar-lhes os caules. é vício de criança. e perco este sabor do que me deixou a boca adocicada.
coisas de quem, por distracção, andou para aí, quem sabe, apaixonada.
deste lastro que vai sendo largado, outro/s nem por isso
quanto às azedas, ... ups tive de ir ver o que era, nunca provei nem sabia o que era !!
:)
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