de Stefan Duncan Gallery

17.2.07

ococidade, Carnaval e Francisco de Assis

Lucky - wondering... - It is 14 February . Is she in love, too?

madalena pestana - neste carnaval

não. não está no dicionário a palavra mas é um estado, melhor, uma qualidade que existe em certos seres. a qualidade de ser oco. oco mesmo. vazio de conteúdo e de pensar, se for o caso humano.

este carnaval, e ainda bem que o é para levar isto a rir, acordei a pensar esta palavra para definir o estar de alguém que me afrontou. quero desvalorizar o sucedido. se consigo não sei. verei na quarta feira. entretanto, que siga o carnaval!

mas enquanto pensava, sou muito dada a isso, lembrava ter-lhe olhado os olhos, faço-o com toda a gente, e ter ido bater direito ao crâneo. pum! nada dentro.
com aquela sensação de vazio que dá no estomago quando se desce na montanha russa, fiquei nauseada. não volto a olhar.

pensando isto, dizia, oiço o piar de um melro macho dentro à casa. nada de espantar, distingo bem. devia ser novato para entrar assim, não conhecia a Lucky , ou então confundiu-nos - ela hoje mascarou-se de mim.

saí de onde estava e ele voou para a sala em alvoroçados sons e bateres de asa. camuflou-se no carvalho das estantes. a Lucky, com pés de caçadora seguia-o e salivava. por antecipação.

fechei na rua a minha amiga. escancarei todas as janelas e olhámo-nos eu/melro, num velho entendimento terra-céus. voou. oco-cidade fora.

pensei em Francisco de Assis, o único santo que conheço. - é, irmão Francisco, hoje um melro, "desprega-me da cruz".*

mas o carnaval vai passar e eu voltarei a ter de conviver di-a-ri-a-men-te com a ococidade. presente que me deram como penitência de quaresma. só porque sim. ou para me vencer pelo cansaço e tomar a decisão de me reformar.

não vale a pena. venho de duras resistências outras. não entro em estado oco por tão pouco.

venha de lá a quaresma. se começou porque havia de parar? de carnaval estou eu a saturar.




* de um poema de José Fernandes Fafe

15.2.07

primaveras em perigoso nevoeiro.

photo by Amit Kulkarni

não faço a pé todo o caminho. há frio, chuva, nevoeiro. há percursos mais difíceis de fazer quando é inverno.

do que é inverno eu sei. há quem chame outono a este meu estar. não eu. passo por primaveras e sei vê-las. admiro-as. abro mais o sorriso e sigo em frente. não se pode tocar a primavera alheia sem o risco de a contaminar com invernias nossas.

não passamos pela vida em branca nuvem. sem moléstias. somos como árvores. guardamos cicatrizes. visíveis umas. outras sensíveis só. mas se enlaçarmos os ramos num ramo de outra árvore em frescura de começo, há contágios impossíveis de evitar. daí que as olhe apenas. como quem contempla a primavera. e siga sempre.

a minha primavera? existiu, e porque a respeitaram eu cresci.

vou pensando, à medida que invado a espessura do nevoeiro. ao ritmo do rolar do autocarro. numa subida da invernosa descida desta vida que já sou .

12.2.07

12 de Fevereiro

Erosion_by_zRy03

hoje passo pelo mar, Homem. não costumo lembrar senão depois. depois de não saber o que me pôs a alma em turbulência triste. sempre depois. escondendo-me de mim. o meu psiquismo lá me vai defendendo da verdade. não estás. não te espero. não voltas. nunca. é engraçado que digam a velha frase “nunca digas nunca”. há tanto tempo a digo por gente demais. trago uma flor branca para atirar ao mar. não a ofereceria se estivesses. não eras dado a flores. sabe-se lá porquê. talvez pela mesma razão que te levava a ouvir Bach e a mim Beethoven. em comum? em comum os olhos claros capazes de olhar dentro. pouco mais.

os opostos atraem-se. é uma lei natural. só pode ter sido isso o que se deu connosco.

mas para que penso eu isto? quando o que tenho a fazer é seguir o meu caminho. só. depois de ti. depois de cumprido um simples ritual. sou dada a isso. e hoje, vencidas as defesas do psiquismo, lembrei-te em dia certo, Homem do Mar.

apresso o passo. com um peso de menos. o peso de uma flor.

Lilly_by_AnimeMangaGoddess


4.2.07

lastro?

folhas mortas ao sol do meio dia


madalena pestana

o vento atirou para um canto as folhas velhas. mortas. não um varredor da câmara. o maior varredor - o vento. piso-as ao passar. têm som de papel envelhecido. cartas limpas de letras que se deitaram fora para nunca haver tentação de as escrever.

sigo. lenta. trago algum peso a mais. ainda. não consegui que o vento varresse dentro a mim. como num chão. terei de ir atirando fora o lastro, de caminho. para não me doerem as costas nas subidas.

pior. pior é também doer deixar o lastro. nem todo ele pesado. nem todo ele morto. como as folhas.

enquanto penso nisto surge uma tonta vontade de me rir. de quê? ora, de mim. é sempre de mim. a cómica da fita! nunca consigo ficar muito tempo zangada com a humanidade. só comigo.

ainda estou zangada comigo e rio-me disso. tão exigente e a caminho da morte... estupidez!

quem cá ficar que feche a porta dos sonhos se eu a deixar aberta. para quê esta mania de perfeição nos actos. no interagir. nas relações?

depois. depois serei mais uma folha seca com som de papel em dia de sol e nada mais. ou nem isso. nem isso.

agora sim. começo a rir à gargalhada.


olha azedas ali! vou trincar-lhes os caules. é vício de criança. e perco este sabor do que me deixou a boca adocicada.

coisas de quem, por distracção, andou para aí, quem sabe, apaixonada.


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