de Stefan Duncan Gallery

13.11.06

hoje arrefeceu

Andrey Vahrushew

está um daqueles dias de chuva por cair. são os que gosto menos.

vou fazer uma sopa para me aquecer. sopa de feijão com hortaliça e azeite alentejano. um naco de chouriço porque gosto de o comer no fim. ou no meio, tanto dá.

gosto de sopa. sempre gostei.

- come isso rapariga. olha que nem que eu passe aqui o dia todo sais daí sem comer!
tu fazes de propósito? queres adoecer ou dar cabo de mim?

aquela voz! aquela voz ressoa se me sento à mesa. ainda hoje. por isso invento sítios para comer. tudo menos sentadinha à mesa. nessa obrigação de comer tudo senão morro. à mesa não!

a mesa era o espaço de discutir ciúmes.

- só agora? com quem é que foi hoje? outro cliente?

- cala-te Bia. vamos comer em paz. estou morto de cansaço.

mas ela não parava. eu sabia isso por demasia. antes tinha ela começado a cantar: "vento não batas à porta..." e sempre que cantava isso ensaiava o vendaval do almoço ou do jantar. à mesa. sempre à mesa.

por isso faço sopa à beira rio. como sobre uma pedra. que bom é!

está quase tudo igual. por cima a ponte. só não é Páscoa agora. na Páscoa não me aborreciam com comer. na Páscoa namorava e nadava. na Páscoa faziam-se e desafaziam-se namoros. todos os anos. por aqui bem perto.

com o correr das memórias e das águas, vai-se a voz torturante:

- come rapariga! queres dar cabo de mim?

é boa a minha sopa. a dela também era. com ela a aprendi.

que pena não ter ela aprendido a amar ou, de pequena, ter aprendido o lugar onde começa e acaba o arco-íris.

e é tão fácil! está ali mesmo. ao alcance da mão.

Andrey Vahrushew


Comments:
Eu sei a relação forte que tens com a água, por isso esperei e continuo à espera de um texto para o nosso espectáculo, um pequeno texto em prosa ou poesia, com a preocupação que todos temos e fazemos de conta que não temos, do desaparecimento dela.

A mesa muitas vezes palco de problemas, aproveitado por muita gente por ser uma hora em que a familia se reúne, quando deveria ser hora de festejo por serem cada vez mais escassas as horas de reuniões familiares.

Beijinhos.
 
"À mesa não se fala!"... lembras-te?
Beijo.
 
Olá Weg
o dia hoje passou lento, não comi sopa,... nunca como sopa,... olhei a Ponte, está igual... já não nado naquele rio á muitos anos. Porque não quero nadar em rios do passado,... procuro novas águas
Beijo
 
Não tenho respondido a ninguém. aliás só hoje voltei a visitar alguns blogs. Vem aí o Natal e para mim é uma época dura que infelizmente não posso saltar. desculpem.
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Vida, Obrigada, não sei escrever senão o que por aqui podes ver, mas obrigada. se alguma coisa que por aqui houver um dia te servir, usa À vontade. Beijo.
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Daniel, lembro sim. MAs isso servia para as crianças...

Beijo

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Silvestre, sobre as águas cito uma tradução de parte de um poema do Berthold Brecht, que desesperadamente (lol) tive de cantar:

"não te prendas a uma onda qualquer/ que a teus pés venha morrer/ enquanto o teu pé estiver/ dentro dessa mesma água/ muitas outras novas ondas junto dele, irão morrer"

A água de um rio não se repete. :)

Beijo.
 
há mães que tiram o mesmo curso na mesma escola, estou a ver. eu passei a odiar sopa. só como quando mais nada há e detesto também comer à mesa... pelos mesmos motivos... provavelmente os temas variavam ...

(daqui a pouco começa a ficar um suplício vir-te ler ahahahaha)


por mim engolia um comprimido cheio do essencial, fruta de verão, um pastel de nata, bebia um café e fumava um cigarro. à beira rio, sobre a pedra, no meio das ervas (sou mais verde minho apesar de não gostar da população mas adoro a paisagem)

boa noite weg, gostei de novo, claro!
 
Weguinha!
tardei .fui ,outra vez ,a última mas desta vez tive uma desculpa .levei todo o dia sem computador .felizmente entregaram.mo ao fim da tarde e aí ,voltei a ser um pouco mais eu

e não perdi tempo em saltar para o "de caminho" onde voltei a encontrar o que sempre gostei ... muito boa escrita ... para ler

obrigada ,quemadre ,um beijo e boa noite!
 
Este comentário foi removido pelo autor.
 
weg

lembrar e contar...para não esquecer como não devia ter sido.

bom dia amiga

beijos carinhosos

della
 
não sei se é pela hora ,mas apetecia.me um prato dessa sopa temperada com azeite alentejano

posso servir.me?

sento.me no chão .sou berbere

um beijo ,quemadre
 
Falaste de sopa e fiquei com fome. Gosto de sopa e de lembranças, porque nelas há sempre mistura de sabores. **
 
fizeste-me lembrar as horas que que passei à mesa ...
também me diziam o mesmo (mas eu era uma lástima a comer) e todos falávamos era à vez tal era a vontade de contar tudo

gosto muito de sopa, essa deve ser boa

gostei de lêr e de me recordar pelo meio

:)
 
Conforte-se Comadre. Se a sua mãe era uma sopeira de maus fígados, a minha era uma louva-a-deus...

(será que isto consola alguém? falta de inspiração.)

:)

Beijo
 
Sopa...Ah se apanhasse um pouco dessa...!É que não gosto de fazer sopa, nem tenho jeitinho nenhum!
Ciúmes, cenas...raspo-me já...
Mea culpa, juventude parva, insegura, talvez...
Gostei muito deste texto.
Especial, dedo na ferida.
Beijinhos
 
weg

já tomei a sopa. e...
estou esperando...
beijos

della
 
engraçado como em segundos percorri anos da minha infância, isso não é bonito ;)

a sopa, as horas esquecidas pelo pisco que era, a amargura da vida.

e hoje continuamos amargos, tb.

um beijinho bom fim semana

adorei.
 
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