de Stefan Duncan Gallery

29.11.06

tu, nevoeiro.

by_ssuunnddeeww

de costas para a neblina que te encobre sinto-te no ar. por todo o lado.

que é isto que me ocorre se mal te sei o rosto já?

que brincadeira tola do destino ou que festa ou que hino à vida que ainda há?

e sei que nem vou ver-te. nem tocar-te. e sei que tu não sabes o que sinto nem nunca to direi. e rio-me disto tudo como de uma novela apatetada de TV. e, no entanto, sinto!

e é tão bom sentir o que ora sinto como deve ser para a árvore sequiosa debruçar-se num rio até quase cair.

e mesmo sem saberes a intensidade deste espanto e sem saber eu ou querer, cair em mim, sinto-te e caio em ti!

Keith Levit


27.11.06

segunda feira

Andrey Vahrushew

respiro fundo. não sei a minha idade. nunca sei. sei a data em que nasci. apenas isso. sei também que o futuro é uma mentira agradável de ouvir e nada mais.

respiro fundo como se fosse jovem e tivesse a vida inteira pela frente.

não é de hoje o esquecer-me da idade. há dias em que me sinto tão adolescente que era capaz das mais impensáveis paixões. por isso escrevo. para não cair nelas.

vivo quase escondida. de ninguém. do risco de sentir demais como era dantes.

envelhecer não incapacita em nada o sentimento ou a intensidade dele. só nos traz a prudência se a quisermos ter.

que absurdo ser prudente à beira morte! tenho de rever isto.

afinal hoje é segunda feira. dia de começar a ver tudo melhor.


26.11.06

foi-se o nosso Surrealismo.

foto tirada do blog Catedral



Uma certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny

...................................................

Adeus , meu Caro. O luto pelos Poetas não tem lágrimas.


hossein farahani

MP


23.11.06

tempestade

Geraint Smith


e chega a tempestade. dentro e fora de mim. de onde partiu primeiro? não. não quero saber. só sei que veio e me atira ao vento e à chuva e os dois de encontro ao meu corpo sequioso de sensações mais fortes que as palavas.

as palavras são boas companheiras quando não há mais nada. mas hoje há. há este cheiro forte a água a negro a futuro e passado misturados nas mesmas poeiras que a chuva arrasta para bem longe de onde vagamente consigo por os pés.

ah que força tem o clima nos meus nervos que eram franzinos porque assim os queriam e se fizeram de aço, ainda quebradiço, porque assim os tranformaram à revelia de mim!

eu quero é ter nervos de bambú, ondulante que vagueiem oscilem mas não quebrem. deixem escorrer a água pelo eixo de si em direcção à terra e se sacudam com uma rajada nova prontos para a que vier logo a seguir.

eu sou assim. já não porque me fazem mas porque assim é feita a minha alma - de tempestade e bonanças passageiras só para aliviar.

que farta estou das almas comedidas e dos sentires pequenos!
farta até dos deuses cheios de uma bondade que até agora não serviu para nada. nem para impedir crianças de morrer a metralhadora fome e violação.

farta! farta de hipocrizia e aceitação do que não tem nem nunca teve de ser assim!

se tiverem de escrever alguma coisa sobre a minha campa ou o vento que levar o pó escrevam: morreu farta de ver não ser!

respiro fundo. a tempestade veio. hoje sinto-me eu.


21.11.06

uma cidade. de três.

by_complejo

sem o andar ligeiro e as saias rodadas que me faziam ser menina e moça. mas as cidades são ainda três e os castelos, os que percorremos. mato a saudade de ti em cada canto.



Boris Kester

os homens que carregaram as pedras dos castelos não sabiam a alegria com que caminharíamos sobre elas.

o clima adaptou-se aos citadinos. está um chove-não-molha impressionante. mau para os nervos de quem ama o irracional e o intenso.

por isso vim aqui. de salto raso. não para lembrar. pois se nunca esqueci. se nunca esqueço.

chovia e o meu pai partiu. por esta altura. chovia e tu partiste. mais cedo no tempo mais tarde no inverno. época das partidas. mas pelo menos, chovia!

cheguei no mesmo mês. que faço agora? os nervos estilhaçam e o clima é citadino hoje...

não posso apagar o mês do calendário e trazê-los de volta.

afago as pedras do castelo. nas pedras fica tudo. ainda que frias guardam história e histórias. como se fossem um cofre quente de coração de gente.


Fabio Keiner

afago as pedras. anoitece. eu deixo de ter cor. assemelho-me a elas.

estou a sorrir, amor. como nos dias das sabrinas saltitantes. estou a sorrir.

para ti.


20.11.06

a fernanda dias a minha lucky e

" lucky" foto MP


a minha saudade de Alentejo, fizeram-me ganhar o único prémio blogueiro, no (tinha de ser num que não fosse, lol) : Um blog a fingir que é.


obrigada a quem teve tal ideia. amanhã vou espreitar de onde veio e como.

19.11.06

hoje, só eu comigo.

Siri Knutsen

hoje não há paisagem que me sirva. nem verso que dissesse. nem corpo que soubesse desejar.

hoje a verdade sou eu e acabou.

a verdade é inventar uma flor e apontá-la ao céu como uma arma.

hoje a verdade sou eu e a minha loucura. o meu não aceitar que os certos são os outros. e porque haviam de ser?

tantas verdades me contaram desde que nasci e vi desmentidas, de caminho, pela prática penosa do viver!

não. hoje não tenho nada inspirado para contar. nem profundo. nem memórias sequer. porque hoje só estou eu e a cadela que me dorme ao lado.

fechei a porta e só a mim deixei entrar no percurso que sigo. mais ninguém.

o raio que me parta e a tantas histórias que devia apagar!

hoje, sobre a pele nua, apenas o amor que fui sentindo até chegar aqui. sem amor não se vive e eu posso não saber mais nada que me valha, mas garanto: amei logo vivi!

e como é bom estar assim quente em meio ao frio, só com o amor para me agasalhar!

16.11.06

pausa no caminho.

Dennis King

não sei quando mas volto.


bom fim de semana ou bom dia a quem passar.



13.11.06

hoje arrefeceu

Andrey Vahrushew

está um daqueles dias de chuva por cair. são os que gosto menos.

vou fazer uma sopa para me aquecer. sopa de feijão com hortaliça e azeite alentejano. um naco de chouriço porque gosto de o comer no fim. ou no meio, tanto dá.

gosto de sopa. sempre gostei.

- come isso rapariga. olha que nem que eu passe aqui o dia todo sais daí sem comer!
tu fazes de propósito? queres adoecer ou dar cabo de mim?

aquela voz! aquela voz ressoa se me sento à mesa. ainda hoje. por isso invento sítios para comer. tudo menos sentadinha à mesa. nessa obrigação de comer tudo senão morro. à mesa não!

a mesa era o espaço de discutir ciúmes.

- só agora? com quem é que foi hoje? outro cliente?

- cala-te Bia. vamos comer em paz. estou morto de cansaço.

mas ela não parava. eu sabia isso por demasia. antes tinha ela começado a cantar: "vento não batas à porta..." e sempre que cantava isso ensaiava o vendaval do almoço ou do jantar. à mesa. sempre à mesa.

por isso faço sopa à beira rio. como sobre uma pedra. que bom é!

está quase tudo igual. por cima a ponte. só não é Páscoa agora. na Páscoa não me aborreciam com comer. na Páscoa namorava e nadava. na Páscoa faziam-se e desafaziam-se namoros. todos os anos. por aqui bem perto.

com o correr das memórias e das águas, vai-se a voz torturante:

- come rapariga! queres dar cabo de mim?

é boa a minha sopa. a dela também era. com ela a aprendi.

que pena não ter ela aprendido a amar ou, de pequena, ter aprendido o lugar onde começa e acaba o arco-íris.

e é tão fácil! está ali mesmo. ao alcance da mão.

Andrey Vahrushew


a talhe de foice

Lucidio Studio

ou simplesmente porque sim, lembrei-me como tudo aconteceu.

*"era uma vez dez meninas duma aldeia muito probe/ deu um tranglomanglo nelas não ficaram senão nove..."

era uma vez... até chegarmos a só duas meninas que até pareciam ser irmãs e brincavam à solta aos domingos nas praias de magoito.

pois.

rapidamente a mais velha deixou de brincar e passou a andar por caminhos já feitos. feitos por medida. feitos para meninas que se querem como as mães as previram conceberam fabricaram.
por medida. a condizer: com os cabelos com os vestidinhos para bonecas com as tranças nunca despenteadas e sem puxões de raparigas ou rapazes.

zero.

e a brincadeira nunca mais voltou.

Keith Levit.

sobrou uma menina que por ser mais nova, não deixava de ver nem de sentir.
tapou os olhos com o verde das coisas como o pai da Antígona arrancou os dele "para não ver mais nada!"

não tinha saído como a concebera a mãe. isso já eu contei num post abaixo. e à irmã, que ela desconhecia agora, tinham ensinado a não-brincar. que é como se devia ser menina.

também lhe ensinaram outras coisas como a ser a melhor e a mentir sempre que fosse preciso salvar a face ou escapar às situações. assim se vence.

a outra era mais lenta e nunca aprendeu. não tinha nascido para ser célebre nem nada. tinha nascido para viver. mas viver tudo. até ao fim. até à cicuta se preciso fosse.

Sami Sarkis

foi assim que a menina que não era esperta, preferiu os caminhos de terra aos caminhos de asfalto e se perdeu no mundo. nunca mais ninguém a viu.

*"era uma vez duas meninas..."


onde andará cada uma?



* excertos de poema de Mário Cesariny


da cor que a Della gosta

Bob Bauer

e em número ímpar porque nunca dou flores em número par.

PARABÉNS DELLA !
SÊ FELIZ! VIVE MUITO E BEM!

Um beijo muito amigo da

Paper-life/weg/ Madalena
srutihari

elee3009





photos-of-the-year




Duane Conliffe

12.11.06

coisas que me ocorrem.

Paulo Azevedo

de dia caminho à toa com o olhar aberto.

hoje vi uma árvore caída. pela raíz. não morrera de pé. arrancara-a da terra materna o vento e a idade.

também eu arranquei um dia. teve de ser para a mulher que sou sobreviver.

é a diferença profunda entre os seres móveis e os imóveis. podemos fugir dos ventos e dos colos insalubres.

Minorhero

à noite, o meu caminho é o de já não ver senão a lua e o pensar.

quem sabe não seria mesmo bom ser como as árvores? soltar a raiz tombar e descansar.

10.11.06

com carinho.

john harvey

vou estacionar o cérebro em qualquer lado se conseguir um lugarzinho por aí. volto segunda.

fica uma flor selvagem a laia de voto de bom fim de semana.

fiquem bem.

beijos.



9.11.06

um beijo, Pai.

Andrey Vahrushew

era uma vez...

há muito tempo já, dois fabricantes de máscaras. um sabia moldar e podia. a outra exigia uma máscara por medida.
puseram-na no forno e a fazedora de máscaras ficou de olho nele. nove meses.

mas durante esse tempo, o desenhador adoeceu. gravemente. ela, a fabricante de máscaras que não as desenhava, teve de tratar do desenhador e dar lustro a outra máscara que já a compensava e ainda, estar atenta ao forno, não fosse a máscara pegar, cozer demais e ficar quebradiça.

Andrey Vahrushew

à hora de abrir o forno, mal podia esperar. tinha pedido ao desenhador de máscaras um arlequim, parecido com ele que, já agora, ela estava convencida que amava. ainda que não fosse essa a sua habilidade maior.

olhou. olhou melhor e ia caindo de costas se não estivesse deitada.

-não é um arlequim!


Andrey Vahrushew

pediu perdão ao desenhador que não a entendeu. olhando a sua obra disse:

- não faz mal é mais bonita que a outra máscara que fizemos juntos. está tudo bem. é uma linda máscara!

a fabricante engoliu a saliva por muitos anos e bons.
mas por mais que a máscara que lhe saíra errada, se vestisse e fumasse como um homem, nada a convenceu. pelo contrário. agora queria que ela se comportasse com uma colombina. porquê não narra a história nem eu sei...

*

bem, nem eu a convenci nem a entendo hoje ainda. mas é um facto incontornável: faz muitos anos, num dia de novembro, neste dia, nasci eu.

usando a máscara que o meu pai me deu.

abençoado homem!

- para ti a flor que tu mereces e já não podes receber. Pai! ou poderás?

Thomas Janik

7.11.06

dois dias antes aconteceu pensar.

at environnement.ecoles

paro para pensar. num banco que sobrou duma árvore cortada. útil até no fim! mais do que eu que pouca utilidade já me vejo.

está sol, mas acordou comigo uma mágoa sem nome. feita de passados. terei sonhado mal ou é a proximidade do meu aniversário a lembrar-me que não fui bem acolhida na chegada?
pelo menos pela mãe. queria um rapaz. coitada! querer mandar no destino sempre foi a ambição do ser humano. nessa altura não havia ainda forma de prever. teria eu nascido se a houvesse?

Martin Munkáfski

lembro quando parei. também para pensar. viúva. três filhos para criar.

tirei a máscara da poesia vida fora.
eles estavam primeiro. rapazes. rapariga. diferença no amar? nem a sei conceber.

já chega de lamentos. tanta pena de mim o dia trouxe!
solto uma gargalhada. deviam ter dado uma boneca à minha mãe para ela fazer vestidinhos e por laços no cabelo. deram-me a mim. e eu nem sequer usava os laços com orgulho. prendiam-me os cabelos...

Michael Schaaf

se calhar nunca teve uma boneca e logo saí eu, com cara disso mas comportamento a negar todas as previsões...

chega! tantas teias de aranha ainda carrego na memória! é hora de as limpar.

e sim: obrigada mãe pelo esforço de parir-me e me criar.


o céu, pode.

Rodney Carlisle

ninguém me ensinou os cantos e os recantos deste caminhar. faço-o à toa como o vento faz.

piso e tropeço em ramagens caídas. natureza morta que ninguém quer pintar.

escorrem ainda as águas dos barrancos. atolo os pés no barro de que sou feita segundo a história do livro mais vendido no mundo.

dou comigo a sorrir desta raiva dos céus.

Detlef Lampe

como seria bom ter eu uma fé dessas que não questiona nada.

tentei. não consegui. tropecei na igreja. a tal. a instituição. e não a consegui ultrapassar.

quanto à fúria do céu, toda ela água - enquanto eu vir uma criança com fome ou um adulto a dormir ao relento por mais não ter. nem uma mão amiga. digo daqui: o céu que se rebele porque eu perdi a pressa que já tive.

o céu pode esperar!


5.11.06

ontem a lua cheia não se via

Matthias Z

escondida pelas nuvens parecia ter mudado o seu rumo, esquecido a Terra. adormeci meio aborrecida. birras minhas com a natureza.

hoje fiz-me de novo ao caminho. passei as terras alagadas. as gentes de rosto carregado da noite mal dormida, do cansaço nos braços de limpar lama. não é bonito ver. menos viver.

segui. imaginando crianças que não vi brincar na lama, como dantes fazíamos escondidos dos pais. ah este medo criado pela modernidade ao sujo irreal que é terra e água! tempos novos...

M Karez

uma borboleta reensina-me a leveza que quero para o caminho. e haverá lua bem visivel esta noite. a chuva trazida pelos ventos quentes deu-nos tréguas.

segseven

não resisto a pensar com um sorriso:

- que diria esta gente a maldizer a lama se lhes mostrasse a flor que dela nasce, o lótus?

ó natureza justa no tudo aproveitar!

4.11.06

isto hoje é, mesmo só de caminho


by Simon Lyutakov

há tempos em que torcemos os caules das plantas para ter água. quem não foi ao deserto ainda não (e saliento o ainda) sabe que é assim.

para nós a água veio sem controlo. o homem a descontrolou. pois que a repare!

a maioria das terras inundadas conheço-as eu bem. conheço o meu país.

mudo de rumo. faço agulha para o deserto onde a água sempre faz milagres. pouca que seja a água ou restos dela, deixados em qualquer planta caridosa, antecipada aos tempos, é sagrada. e assim tem de passar a ser. para nós também.


Ashley Crombet-Beolens.

esta madrugada uma ave cantou a anunciar-me que era tarde (ou cedo?) para dormir. era o melro de todos os meus caminhos até hoje.

não é tarde. e eu sigo o meu percurso, curto já, na esperança de encontrar uma ave que cante no deserto, e acredito: há.

at tomuphoto

hei-de sonhar os melros no deserto que criamos, dia a dia.


1.11.06

pão. por Deus!

photos-of-the-year

ninguém bateu à porta. nem a brincar que fosse, como eu fiz em menina:

- pão por Deus!

um saquinho branco com um folhinho em volta, que a minha mãe fazia com rigores de alentejana que quer mostrar beleza até na brincadeira do pedir.

ninguém bateu à porta mas a fome está mesmo aqui ao nosso lado. e ainda que já passado o dia, podemos lembrá-la e limitá-la um pouco. nem que seja uma vez. pelo Natal.

não é a solução. todos sabemos. mas parados nunca faremos nada. e a quem tem fome não lhe importa o como. o que quer é já mesmo e só O PÃO, por Deus ou não.

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