de Stefan Duncan Gallery

31.10.06

caminhos brancos

Hubert Steed


vim espalhar flores sobre os caminhos, brancos dos passos dos amigos a meu lado.


Mário Vieira

um mês mais de silêncios que de prantos o que entra amanhã. nenhuma campa visito há muito tempo. rituais só dentro a mim cumpro ao lembrá-los.

escolheram o mês em que eu nasci para partir. estranha homenagem. forma de os não esquecer? não precisavam. aqui estou a lembrar-vos como estaria se tivessem escolhido um pleno agosto.

são vocês o meu círculo de pedras, que tacteio com carinho e perícia nas experimentadas mãos. sentem daí?

de caminho vos digo: não há mortos! há apenas ausências físicas. nenhuma outra palavra cabe no meu sentir. tão cá dentro vos tenho, amores do meu percurso, amantes de viagem.

sento-me na areia e um por um digo alto os nomes deles. respondem à chamada.

acendo o nada ecológico cigarro que todos saberiam recordar. estou pronta para seguir. sem nada para esquecer e muito a recordar.


29.10.06

masculino

at telegraphics

másculo, luzidio, o sol voltou. molhou-se na água a sorrir. aqueceu-a. depois devolveu-a ao leito costumeiro de onde saíra, só para fecundar.

é assim ano após ano ou deveria ser.

voltaram as cores aos rostos e as roupas leves. já nem os atingidos falam das cheias com raiva. é recomeço. vi-lhes há pouco o rosto e era de esperança.


assim desejo para todos que seja a semana de trabalho que amanhã começa: de esperança.

perguntarão: em quê?

em tudo. até nos homens!

até já.


28.10.06

Hoje

Joan Ramon Mendo Escoda


saio do abrigo e vou saudar o sol.


hei-de voltar. se alguma coisa houver para contar.

27.10.06

imagem

Walter Rhoads

vem de dentro a imagem. devagar. cresce em cor azul. em suavidade toda. há uma paz nova líquida, na terra.

informe ou quase ainda, um brilho nasce e move-se. arredonda. ondula. suavemente. e espera.

Frantz Plotard

espera o quê?

o sol primeiro. porque é imagem de água.

evolui. ganha células. sorrisos. a esperança. outra vez.

e é ao homem que espera.

agora imagem fértil de mulher.



25.10.06

choveu.

\\

Charles Cramer

e a água encheu a terra e transbordou. e os homens pensaram nos haveres perenes. e as gentes temeram da benção maior. choraram os seus bens que querem imortais.

a natureza não se comoveu. os trovões ribombaram e o vento uivou. a água fez mais rios pela rocha abaixo. atravessou os caminhos vazios de árvores queimadas pelos homens.

os homens continuavam o lamento, o protesto. inaudível agora que a torrente que caía do céu tinha mais força e mais verdade e mais razão.

vi-a. ouvi-a do meu abrigo parco. saudei-a a sorrir.


Ansel Adams

água! benção grande em rodopio.

ninguém pensa agora nas secas já previstas. ninguém recorda a dor no peito seco e poluído.

o carro. a cama. o telemóvel. o frigorífico!... tanta água para quê?

para quê? para que tudo renasça. para que tudo viva e a terra se renove.
para que o deserto demore um pouco. um pouco mais.


Walter Rhoad

um pouco. um pouco apenas.

e o carro? e a garagem? e a roupa? e?...

que se lixe! tentem viver sem água. com carros telemóveis roupas garagens camas e casas intactas.

eu sigo o meu caminho. esse futuro não quero eu ficar para ver.


22.10.06

e a tempestade veio.

Gina McKenna Burns

colheu-me no caminho. estava por todo o lado. fora e dentro de mim.

à tempestade interior tentara eu fugir. amarfanhando-a. tentando não amarfanhar mais ninguém ao fazê-lo. não sei se consegui. não posso pensar nisso. desde o início que esta caminhada é e será solitária. com pequenos encontros condenados a nada mais ser que ocasionais conversas de caminho.

trago comigo o amor único que vivi para além dos que pari. agradeço a quem mais me quer dar, sorrio mas não aceito. não teria como retribuir. sei isso há muito tempo. tive o privilégio de amar e ser amada. na vida as coisas muito boas não se repetem. ou muito raramente.

quando, por acidente, tentam que a vida se me repita, fujo. e por isso fugi. mesmo desta vereda.

súbito veio a natureza em meu socorro e trouxe a intensidade exterior que me faltava.
assim, misturado o meu uivo na caverna de mim, ao uivo sibilante do vento. misturadas as lágrimas que caiem para dentro dos olhos às que o céu deixava cair numa torrente, limpei-me de medos e, de uma certa e absurda forma, ressurgi.

mulher excessiva - alguém um dia me chamou. coisas de poeta. mas neste dia apetece-me acenar-lhe daqui. talvez tenha razão. afinal os poetas servem para quê? - para encontrar as razões onde a razão não chega.

e no meio da tempestade que saúdo, sigo. sem poisar o cajado, ou deixar de viver.

21.10.06

só vim matar saudades

Siri Knutsen

de caminho deixo uma rosa de chuva para quem passar. aproveitem a água. é preciosa.

sorriam quando a virem cair.

bom fim de semana


17.10.06

pausa

Iwona Maciaszek

no meio de uma manhã desordenada, ofereço-me uma pausa sem data de regresso.

16.10.06

chuva deserta

Vadim Nishenko

vá, não me olhes assim mocho atrevido. mais depressa soubeste tu a chuva do que eu. lá porque te contei os meus desertos, não te sintas já dono de mim.
nos outonos eu era feliz. nada mais a saber. o demais eram mãos dadas em urgentes madrugadas e cores infinitas ao sol por.
mas caiu o silêncio.

*Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto.
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Vadim Nishenko

já arrumei a mala, mocho. há água no deserto. já podes deixar de olhar para mim. levo na imaginação o oásis do outro que me envia esta chuva deserta. o que partiu. o que fez mais depressa as malas do seu ser. vou. para onde? por enquanto para onde tem de ser.

levo-te o olhar. mocho bom!

*Álvaro de Campos


14.10.06

volto

at Eyhany Gallery

quando colar a mim a cor do outono.

11.10.06

caminho de tábuas

donnie mackay

o caminho de tábuas que encontrei vai dar a uma casa.

uma casa que não vai dar a parte nenhuma, como todas as casas.

as casas fecham os caminhos. são o fim, não o início ou caminho para nada. as casas envolvem protegem até, mas fecham-se sempre sobre nós. fecham o mundo lá fora.

é cá fora que estou. cá fora, livre de todas as casas onde morei e deixei rasto. cá fora. livre de cimento armado sobre a alma.

tenho a alma à solta como um pássadro que sabe voar. não um canário. nunca um canário.

o meu adn ficou em tantas casas já, que moro nelas todas sem que me vejam lá. é engraçado pensar nisso agora que não tenho casa, só ar e verde e rio e aves soltas. é engraçado pensar que somos um rasto deixado em outras vidas que habitarão as casas que deixámos.

há tanta coisa engraçada sobre as casas que se vê cá de fora, só mesmo cá de fora e, sobretudo, se não se tem a mínima intenção de entrar.

10.10.06

na noite.

Ilona Wellman Mancano


uma rosa entornou-se em encarnado

pintei com ela os lábios

mas ficou-me vontade de a beber.


nevoeiro

by Robert Minnick

esta noite tive uma insónia mas uma insónia boa. daquelas sem angústia sem ansiedade. calma. uma simples falta de sono à noite.

o rio corria manso, sem sofrer sobressaltos de pedras ou de chuvas violentas. só rãs mochos e o impossível silêncio total que o campo tem. deixei-o correr entre os meus dedos. contei os sim e os não da minha vida pela água que batia no indicador ou no polegar.

veio a manhã e mal a vi chegar tanto o nevoeiro. tinha de partir. adivinhei a chuva como sempre. demoraria ainda mas não a ponto de me distrair e me perder ali.

Jerry Dodrill

mas bem dentro de mim crescia outra vontade minha, a de me perder e ficar a contemplar a paz do rio na hora em que o sol nasce, mesmo se não se vê.

contrariada ou não subo a encosta do monte e fico um pouco mais a pensar quem ganhou, se os sim ou os não que disse neste mundo.

posso sorrir agora porque venceu o sim.


7.10.06

celebração

Gloria Blanche Wood

como é possível ficar indiferente a tanta luz e cor de outono? esta é a minha estação de celebrar.

continuo de caminho. até chegar o frio, só vez por outra passo para contar.


6.10.06

febre.

art by Bo Huffman

dói-me ainda a cabeça. a febre abrandou já. a febre traz luzes estranhas à memória de luz. escusava abrir os olhos quando ela subia.

basta ver o que há. para quê ver para lá disso?

saio do povoado. encandeia-me o sol que bate na cal branca das casas.

Adam Opalka

a chuva começou a abrir o verde. iluminou-o. mas ainda vejo tudo muito branco.
caiem gotas de água de uma roseira esbraviada. aquela, que tem nome de santa. peço-lhe uma flor e ponho-a ao peito no rictual de sempre.

hoje a saudade de ti pesa-me como a febre na cabeça. eu disse saudade? não. errei. saudade tem-se do que se perdeu. desculpa. estou confusa. corro ao teu encontro com a força que me sobra.

andei sozinha anos por muitos caminhos. este, meu amor, é nosso até ao fim e depois dele.
foi a cidade. foram as luzes da cidade que me poluíram a mente e o olhar.

o rio espera-nos.

5.10.06

encontrei no caminho esta pergunta

Hugo Tuffen

how much longer can we watch the green world go by?

Hugo Tuffen


quanto mais tempo podemos assistir ao desaparecer do mundo verde?

como estou doente, não vou longe. algum de vós quer responder? por mim, fico a pensar e a tentar reagir.



5 de Outubro

from geocities.com

parei no caminho para tratar a fruta da época, uma bactéria um virús? sei lá eu?...

uma febre diria o meu avô. "ora, isso com uma pinguinha de vinho quente com açucar e bem abafada, amanhã tás nova...".

não sei se estaria que isso não tentei . mas ainda cantei uma cantiga que aqui deixo para o feriado e que ele me ensinou, coisas de terras tão longe da capital, que faziam com que a República fosse uma mulher vitoriosa e bonita.

Vivá República

Que ela não tem medo

Faz andar as moças todas

Num enredo

Todas num enredo

Numa exaltação

Viva a República!

Viva a Nação!

Bom Feriado a todos.



3.10.06

a ilha

by Aleksis Moisio

quando a alma nos é uma minúscula ilha e não basta de todo haver presente

e o futuro parece que se aninha ao colo do sol, no fim do poente

Warren

aí, se a ave que se veste de negro mas canta as cores de todo o universo

se junta a mim no tal desassossego de quem sabe mais do que cabe num verso

olho-a e ganho de novo a noção de infinito e solto, em liberdade, a dor num grito.


1.10.06

Por favor

stan trampe.
vive e dá-me a energia da Terra.

hoje cansei.

andrea morelli


hoje a meio caminho do sonho

caiu-me a lua feita pedra

aos pés.

sem luz. tão fria!

tão fria que gelei só de a olhar.

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