de Stefan Duncan Gallery

30.9.06

padres de pedra

creation by jj andre

nascida de água

cercaram-me de fogo

fora ao contrário e podia entender


feita de fogo


cercarem-me águas frias.


para eu arrefecer. endurecer.

mas o fogo amoleceu

a dureza de pedra

deu-me ao olhar claro

de rio

força e calor de chama

foi culpa minha se aprendi

a tentar?

Edyta Pilichowska


dizem os padres dos deuses

que eles viram

que é pecado que dá pena maior

por isso uso os meus padres

de pedra

esses não se tentam e nem contam

a ninguém

o prazer de tentar

e de ceder às tentações de ser

feita de sangue e carne

verdadeira.



Benjamin Geiger


29.9.06

sobretudo para ellas/elles: al-jib.

Kerry Gyekis


della. e quien vuella por alla.

não levem este blog tanto a sério, fiquei só a olhar o parto de uma águia, de caminho, traduzi um texto sobre a UE até 2050.

quem aceitar conselhos de idosos: Emigre!

não porque eles vêm aí mas, porque vai ser preciso ocupar o lugar deles , nos próprios países, eventualmente.

ninguém quer parir, já.

quando eu voltar a raciocinar bem, regresso aqui.

minha gentji ?

bejes y sueños

BFS

;)



PS. este vídeo será retirado na próxima postagem, para deixar a águia chocar em paz.

28.9.06

a pedra. o rio.

Saul Santos Diaz
a pedra:


pedra no charco da minha vida

foste

pedra angular da construção

de mim

grito inaudível a outros

ouvidos

silêncio-beijo onde eu quis

amor

dentro da vida ou fora dela



és o presente do que não tem

fim.


J.J. André

o rio:


fora de tempo me surgiste

tu

voz saída de um corpo frio

marmóreo

a pedra estoirou só de te ouvir

coração

pedra, o meu estoirou

também

e assim foi desde princípio

a fim

sem outro consolo que ser-te eu

a mãe.

homem partido na dor de te ter

sem poder

ter sem ter amar sem corpo

alma

a fingir fria calma

onde geraste um vulcão de

dor.


*

- meu amor!

- meu amor!


26.9.06

pausa no caminho

Jon Klein

até que a chuva me refresque o andar.



-dizes um poema?


- aqui onde terra e céus são nossos e para ti? claro que sim.


*Um poema, Senhor!
Um nenúfar aberto neste lodo!
Ou então desça todo
O teu silêncio
Sobre o charco tranquilo.
- Um silêncio tão largo e tão pesado,
Que nenhum condenado
Possa ouvi-lo.

Alguns versos de limpa transparência
À tona da maciça podridão!
Branca e alta emoção
De purezas eternas reflectidas.
Ou então
Que o teu silêncio inteiro
Aquiete de todo o coração
Dos poetas - os sapos do atoleiro.


- ainda dizes tão bem como dantes dizias.

.jean vallette

- foi o que me salvou quando te ergueste e foste, noite já. subiste. só podes ter subido. senti, tu sabes isso. descobri antes da notícia chegar. senti na hora.


e disse poesia país dentro, desta não, da de criar raivas novas, sonhos novos. crenças sérias de futuro nas mãos. tu sabes como eram os nossos poemas da guerrilha-palavra.

jean vallette


assim reguei a semente que deixaste cair na abalada.

o tempo que sobrava e, ainda bem que pouco, regava-a eu com o suor do corpo no deserto da vida exterior que me envolvia. fui uma serpente no deserto sobrevivendo nem eu sei bem como ou de quê.

Stan Tramp

- da tua força anímica. sempre te falei dela. eras indestrutível.

- não, não era. era só a tua semente ao vento sem saber bem onde iria cair.

- mas ainda amaste.

- sim, um filho grande que me deu mais filhos. tinhas razão "tens vocação para mãe".

a raiva que me deu quando o disseste!

- tu e as tuas fúrias de adolescente. amava-as.

- eu amava-te a ti.

Stan Tramp

- minha querida! como conseguiste não fazer de mim o teu passado?

- tendo-te tão presente na memória tal este momento em que livres nos tocamos, como se tivesse sido ontem a separação.

- loucuras de poeta.

- não te rias. quando muito loucuras de sapo que um príncipe uma vez, num beijo, despertou.

*Migel Torga


24.9.06

corpos-alma


jean vallette

- nunca te vi nua.

- não. nem eu a ti. e depois já vias o corpo deserto que tanto poupaste?

- sim, via e sofria. primeiro por ti, tão triste e fechada tão bela e tão morta para outros olhares.

- vivera por ti. aprendi a vida no olhar sereno no sereno ouvir no tocar de leve nas palavras sábias que tinhas para dar.

- porque te fechaste?

- para quem me abriria se nem me sabia viva neste estar?

jean vallette

- por ti, minha querida, tinhas tanto amor ainda para dar.

- não tinha não tive. tive amores outros. aqueles que sabes. eu tenho a certeza que nunca partiste que vias que viste.

- vi. sei que soubeste pelo canto da ave que te transportava lembranças de mim. eu não sei cantar mas cantei para ti.

doía-me ver-te nos barços errados por não serem meus. errados por não saberem abraçar-te bem. cercar-te daquele carinho que eu sinto, que eu sempre senti.

Stan Trampe

depois tu ficavas vazia e cansada ao frio corpo frio. corpo abandonado. sem que ninguém visse esse teu cansaço do nada sentido.

- vem. vem tu agora apagar os traços ainda marcados de corpos passados que nunca eram meus porque não podiam porque não deixaram antes, que fossem os teus.

- deitámo-nos juntos. ainda te lembras?

- sim, na erva fria. vestidos, compostos aos olhos dos outros. mas eu já tremia mas eu já fremia...

- e fervia eu até me doer.

- vem. abraça-me. sou tua sou tua!

eu sempre fui livre. mais o sou agora. e a ti meu amor... de hoje em diante já eu posso amar já eu posso ter!


Dorota Pawi Fowska


21.9.06

máscaras de mim.

floating-masks at waltondesign

num sonho desperto vejo-me muitas vezes outra. vezes demais. máscaras de mim flutuam-me na memória: máscara-mulher, máscara-felicidade, máscara-palhaço, máscara-fé, máscara-força e a máscara do papel mais bem desempenhado e sem aplausos: máscara-mãe.

parti para um caminho natural, sem prisões e sem regras. vagabunda do tempo e da terra. não posso, meu Amigo, carregar-te comigo, nem até à montanha onde escreveste um livro e mergulhaste tu também na lagoa de um rio (primeira vez?). não posso. tu passaste. não deixaste memórias de enriquecer a alma, não a mim. ficaste escrito em folhas de papel que pedi para queimar. estou certa de que assim farão as amigas de sangue verdadeiro.

death - at Spiral Eyes Photography

ergo-me. penso: morri naquele dia e nem notaram. apressaram-se a colocar-me uma máscara nova e a gritar - és actriz, salta para o palco, era ali que ele quereria que estivesses.

mentiam sem saber. como não sabiam que eu partira com ele.
patéticas figuras de um desafinado coro grego, como as ouvia longe já!

subo montes na procura de caminhos diferentes. carreiros feitos por animais. cansei de gente, há tanto tempo já que nem me lembro bem. a natureza é a minha única esperança de mergulhar no espírito que me cerca e deixaste, como uma aura proctetora a envolver-me.

- nunca viajámos juntos...

- não podíamos.

- vamos agora, Mestre?

- claro, agora e sempre.

e de caminho já, grito a palavra interdita, guardada tanto tempo:

- Amo-te.

corro pela serra acima sem esperar resposta. connosco volta agora a ser assim.

20.9.06

numa noite branca

Danny Green

paro para pensar no que há de real no irreal de mim.

19.9.06

o comboio para e a noite fecha.

Edyta Pilichowska

agora não posso falar mais de livros de montes de serras. por agora não.
tu és tão do dia como esse teu riso na minha cabeça.
da noite sou eu.
a que não conheces. que viste sem ver. olhaste-lhe a máscara sobre o rosto magro. vias-lhe as cores de tintas baratas. cheiro a camarim.

a outra casou-se um dia contigo. como aconteceu?

amor. sim amor.

mas saber amar? isso era com outro. o da poesia da noite e do dia. da terra fecunda. o dos pôr-de-sol. aquele que olhava dentro dos meus olhos e me via a alma. aquele para quem eu não precisava já sequer falar.

escrevo sobre amor?

que coisa tão estranha!

entro noite adentro e vejo tão bem como um cego que foi treinado para assim viver para sempre.

éramos da noite éramos do dia éramos da vida e a vida parou.

parou o comboio. a vida? também. eu sobrevivi?

se me olham e vêem...

dele que ficou?

toda a magia que agora me assola. me move me impele me rasga e consola. o grito o murmúrio o beijo por dar. aquele desejo que ficou na terra sem que haja alguém para o saciar.

da noite era ele.

da noite e do dia. da vida. para a vida. da morte. e eu sou morte?

não. nem ele iria deixar que o seguisse...

*

perdoa. perdoa. amanhã, prometo o dia é para ti.


18.9.06

uso o horário do sol

farah

deixo para trás um rio e um herói. há mais, muitos mais rios. heróis nem tanto. eu conheci mais dois. os outros eram anti-heróis. ou heróis ao contrário. gente grande toda. mais os homens.

as mulheres do alentejo ou do sul? ocupavam-se em ser organizadas. asseadas até à exaustão. não lhes sobrava muito tempo para ser mais que mães e donas do seu senhor. tempos idos...

sei lá porquê ao sair do túnel da noite, de comboio, ao encontro do sol, vão comigo os meus homens, como dei em chamar-lhes.

farah

poucos existem ainda a não ser na memória. sou já tão pobre agora! mas quem mais teve adolescência tão rica como minha? estarei a consolar-me? talvez.

olho este rio que fica na margem do caminho de ferro. outro rio. também nele já desceram sonhos palavras minhas beijos meus enquanto, no degelo, eu caminhava em montes, escorregava no limo dos penedos, ouvia o indiscritível som da água a correr, logo pela manhã.

- onde é que você está? já tomou café?

- aqui, ao pé do rio.

ele sorria trincando uma torrada. despertava cedo mas não funcionava antes de comer.

- olhe que ainda escorrega e cai daí. e lá terei eu que mergulhar na água gelada ao nascer do sol. que como nadadora é uma excelente actriz...

- cair eu? era mais provável outra aparição da virgem.

gargalhada cristalina a do meu homem!

Richard Allen

capaz de fazer, logo pela manhã, abrir uma corola.

de comboio ninguém vai sozinho. menos ainda para a montanha ou para o deserto. desta vez vais comigo, homem do mar.


16.9.06

da Terra. as mãos na terra, a água...

andy freeberg

de uma concha no rio digo alto o teu poema. ecoa na planície e retorna a mim. ciclo de quê?


*Não há cavador só do exterior
Desgastou-o a terra tornou-se terra
fechou-lhe a boca gretou-lhe a pele
não há cavador só do exterior

Não há cavador só do exterior
Da fome é a sua cor é tão pobre que não conhece o calor
a vida mirrou-o o senhor usou-o
não há cavador só do exterior

Perry Dilberck

Não há cavador só do exterior
Fez um poço tão fundo que cabe lá dentro o mundo
a terra fez nele uma ferida e ele deixou a mulher parida
não há cavador só do exterior

Não há cavador só do exterior
Arroteou montes fez correr fontes
regos rugas na cara que o choro fura
não há cavador só do exterior

serge-sautereau.

Não há cavador só do exterior
Ele a cuspir nas mãos e a cavar a chuva a cair o sol a queimar
em casa a mulher foi casar e fiar parir e chorar
não há cavador só do exterior


perry dilbeck

Não há cavador só do exterior
A terra deixou de dar teve de emigrar
e embora estar fora lhe doa a tudo ele se afeiçoa
não há cavador só do exterior

Não há cavador só do exterior
Cava tudo a eito arranca uma pedra tem uma pedra no peito
uma lasca de pedra num olho e é já de terra o seu corpo velho
não há cavador só do exterior(...)



Jaime Serrano

nada dado a carinhos expressos. os lábios secos demais para infantis peles de cidade

- deixa-te dessas coisas filha, já 'tou velho...

mas de caminho para os teus braços de árvore, saltava-te para o colo de gigante, sem me intimidar.

até breve avô. estou de passagem.

não vou ficar por cá para a última colheita, prova a deus.



*Obrigada Querido Ruy Belo
Excerto de, "Canção do cavador", in Toda a Terra


14.9.06

ciclo de água.

Christopher Holand

nada volta ao início mais que a água.

olho para trás. nebuloso caminho a minha vida. fonte tive. não lhe vejo os contornos. genes de pai mãe avós. ancestrais raças. quem sou hoje?

o presente não existe propriamente, posto que ao falar dele já passou. como a água do rio que agora olhamos não pára para nos ver, segue e é futuro ou presente de alguém, mas mais à frente já.

at origins-photography

tantos sons na cabeça de vozes passadas quantas os sons das chuvas na corrente, mas não os sei ou nem os quero ouvir. em tempos quis. ouvi passados. ou seriam futuros? nuvens de outros seres que foram. ou serão?

não quis saber. e poderia? segui as minhas limitadas margens como um ribeiro estreito que só quer porque quer, chegar ao mar.


at SerioComic

avessa a chamar medo ao que mal conheço, subo os mastros de mim e dou um nó de cordame na imaginação, como lhe chamo. minto. que eu não sei imaginar.

a minha lucidez aterradora há-de fazer com que um dia volte atrás, à nascente minha e alheia. receba da terra passados. ou futuros? - como a água. mas primeiro tenho de ser ar.

12.9.06

pausa no caminho

McMorris

margem de todos os rios.

Andy Freeberg

a minha cabeça sabe todas as águas. passam pelo meu corpo-pedra os rios do mundo e é na minha alma que vêm desaguar. tenho por dentro um mar.
avós? uns da terra outros do monstro oceano.


at pixiport
água.

como não ter-lhe a tranparência no olhar de tanto a fixar, corrente sobre pedras buriladas? como esquecer-lhe o som, a frescura, as histórias que murmura ao passar?

Alfred Moton

todos os rios que vi e mais os que não vi, me molham me moldam, me acometem em enchente, se é inverno. todos! até aquele pôr de sol no Nilo que talvez nunca veja, me comove.

hoje não penso mais que em paz e água. duas palavras-conteúdo que tendem a findar.

e há ainda aquele rio. o rio. azul. único.

rio onde a minha vida corre no meio a tantas outras mas, por ser minha, diferente e trágica. beleza de passados que não voltam nem morrem porque nada morre.

sei mais da morte do que sei da vida. eu e água.

quem findará primeiro? ficarei pedra margem parada na berma de um leito já vazio e seco. mas a minha vida há-de evaporar-se, lenta, suavemente sem saber ao que vai. como as nuvens brancas que os rios formam no verão.

terei um final branco sobre o meu rio azul.


By Alfredo


10.9.06

rio meu.

Vaclava Svobodova


tempo bom em que cabia nas grutas de raposa. via os pés dos adultos passar ao rés de mim sem me encontrar. e eu gostava assim . aparecia depois sem triunfo no rosto. nunca tive a certeza se não me viam mesmo ou se o corpo, desde sempre comprido, me traira.

voltarei a caber numa gruta, no fim.

vieram mais tarde outros corredores da terra. quilómetros deles, percorridos ao lado de homens silenciosos. ali, naquele túnel longo, tinham andado águas. gentes agora. ansiosas por vencer. por sair dos escombros de uma política de medo e incultura.

dizia poemas para disfarçar lutas outras. dez anos. e ia porque queria. era livre.


Claude La Riviere

talvez a chuva tenha engrossado o rio que ainda corre mas por dentro do cenário que sou.
e eu tranbordo de uma ternura grande, por um passado duro até perder de vista.



andy freeberg

mas o sorriso teima em me subir aos lábios.

também aqui, neste alentejo ardente, houve lutas tremendas e muito desiguais.

eles queriam tirar nabos da púcara cá ao velho. isso era bom de ver. mas com família minha ... ainda está para nascer o filho da mãe que me faça falar!

já cá não está o velho. nem o homem que nesse dia ele salvou.

o rio sim. corre sem espanto comigo dentro dele. ou ele dentro a mim?


8.9.06

Moura.

Dave

*Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro

há uma luz nova na manhã. a chuva veio enfim. todo o verde em redor brilha sem precisar da crueza estival do sol .

vou aproveitar o fresco para caminhar pela estrada, abastecer-me e rever a cidade. temo um pouco. não venho há muito tempo a esta terra de mouras encantadas, que se atiravam do castelo por desterro demais.

de desterro eu sei, que desde a adolescência me desterraram para Lisboa. respiro noite e dia o fumo de automóveis. a poeira das obras que são intermináveis sem que o efeito se lhes veja sequer. basta que chova como agora e lá se vai tudo desfeito em água e a entupir as sarjetas juntando-se a jornais, pacotes de sumos e publicidade a rodos - árvores cortadas a desfazer no chão e a entupir os canos. cheiro nauseabundo da civilização.

em menina corria esta estrada ao desafio com os rapazes. vencia sempre, que tinha pernas longas que galgavam muros.

ainda isto por cá era uma vila, onde só a fábrica de azeitonas dava algum trabalho às mulheres, para além da ceifa e da monda. para os homens a pedreira. dorsos vergados de sol a sol, cantando como os escravos que criaram o jazz.

Moura.


sou moura e aqui estou de novo.

sonhando, porque mais não posso ter, com a panela de barro que lentamente preparava o jantar servido em malga grande. cheiro de lenha, chouriço, hortaliça, hortelã...

e as conversas lentas. até se arrumar tudo e ir até ao jardim ou sentar no peal da porta, pela fresca.

b'noite compadre!

b'noite, ti Agostinho!

avô, é verdade que o poço do quintal vai dar ao meio da vila?

até ao fim do labirinto nunca fui que não me deu para isso, mas que vai longe vai...foram os mouros...

os mouros! lá estou eu a sorrir na manhã fresca.

o Bush que se dane! correm-me no sangue os mouros de lenda e carne verdadeiras. ele não!



* Sophia de Mello Breyner


6.9.06

adormeci ao sol. sonhei o mal.

by Dave M

aonde irão vocês se as cercam mais? a que céu ou inferno apelarão?

não gritem. não enrouqueçam. eles não ouvem. nunca sabem ouvir. se nem aos deles escutam porque haviam de ouvir a voz das árvores que respiram?

fujam! arranquem as raízes e corram! o fogo vem aí!
eles ateiam fogos... porque querem! porque sim. por vingança contra outro homem. pela beleza, pelo gosto de ver todo aquele encarnado-alaranjado tom. corram! fu...jam...

felizmente desperto. estou ofegante. arde-me o peito num sufoco aflito.

tudo queimava em volta. eu podia sair dali mas elas não.

Vaclava Svobodova

enrolo-me na areia da margem. é segura. não me sentia tão pequenina assim, há muito tempo.

a humanidade enlouqueceu e eu sei isso.

não posso fazer nada. é o que mais dói.

posso. consegui um pouquinho nos meus filhos. eles escolhem o mar. protegem-no. amam. procriam.

eles, são.


earth jj andre

quero alegrar-me de novo. sacudir de vez o pesadelo e seguir o caminho deste rio ou de outro qualquer rio, que os amo a todos.

mas a terra mãe definha já dentro e fora de mim e do meu cérebro cansado.

quem sabe foi apenas um pouquinho de sol a mais?

volto para a sombra e limpo do rosto as lágrimas que não sei chorar.


mãe!


5.9.06

eroticidade.


Sig Pereira

amontoa-se o pão cortado já. sobra o restolho que fere as pernas ao andar, mas depois da chuva, o cheiro é mais saciante que o do pão.

excitou-me sempre esse odor a erva seca e terra e água. se ia de carro, pedia que parassem só para o sorver, sôfrega daquele sentir novo que a terra me oferecia.

não mudei nada.


magda marczewska

de cabeça coberta, ao jeito árabe, cubro o frio e o calor se é alentejo. eles e eu gostamos. mania que se colou ao meu viver citadino seja ele moda ou não.

hoje vou cozinhar. cansei dos enlatados. há pouco que comer com este calor tórrido mas o sol que mata, também faz renascer se chove e há semente.


at showshown

e assim que encontro um tufo de erva, encontro espargos bravos, brotando do chão que há dias parecia cinza já. grelho-os com uma taínha que um pescador me deu. é melhor que salmão e eu tenho limão e sal, é quanto basta. junto um pé de alecrim para dar aroma.

o almoço estimula-me os sentidos. todos.

e o meu corpo arde, com a mesma intensidade da terra que me cerca.

deito-me nua sobre uma pedra grande e húmida, dentro ao rio. quem sabe consigo adormecer...


3.9.06

tentações.

MercurySoft1

como se fosse um deus, dou nome às árvores. não a todas. às que conheço bem e que me acolhem.

na adolescência encontrei uma de raízes expostas, que mais que ter dois ramos parecia geminada. reencontro-a agora. só a margem subiu e a casca da árvore parece mais rugosa. é a raízes. corro para ela como para um amigo distante há muito tempo.

o ar está pesado. a minha pele arrepia. costumo dizer que dou choque nestes dias. trovoada.

- e não chove? abafa até à alma.


Svalbard

desabafos apenas. vivemos numa estufa de gases e hoje eu tenho a sorte diferente de ter um pouco mais de ar.

- amanhã vai chover...

- como é que sabe avô?

- olha para a lua. quando ela leva um círcalo, se o vento não mudar ao outro dia chove.

e acertava sempre. mudaram tanto os tempos.
o calor mexe com as minhas memórias mais profundas, arrumadas. tempo de tentações - adolescência.

Edyta Pilichowska

rosto e sentir de mulher em corpo de criança.

- aonde se meteu aquela rapariga? com esta trovoada de meter medo? ela sabe do perigo...

no terraço, claro. onde havia eu de estar se não havia morros perto, na primeira cidade que habitei? dali avistava o rio, outro rio, a receber os raios cruzados, luminosos.
nunca gostei de fogo de artifício.

mas são tão belos os raios de fogo a descer daquilo a que chamamos céu!

- que estás tu a fazer com esta trovoada cruzada, no topo de um quarto andar? enlouqueceste?!

ensopada de abençoada água, não lhe respondia. sabia-lhe a razão. descia a casa e ficava a ver da janela a tempestade.

tentações. sempre as aceitei se maiores que eu.

as primeiras foram num dia assim e ainda cá ando. fico-me junto à árvore sem medo. quantas trovoadas não viu ela já?

sobreviventes.


1.9.06

o sobreiro.


Katharina Niemeyer

cruzo com um pastor que me não vê. se visse levaria a mão, num breve cumprimento, à aba do chapéu que nunca tira e seguiria o seu destino a passo lento. vive o dia com o que leva no guardanapo atado com um nó ou num talego: pão e queijo de ovelha ou pão e um naco de toucinho da matança do ano. água há-de encontrá-la. sabe os ondes todos da planície.

olho-lhe as rugas com um respeito novo - sulcos abertos pelo arado da vida dura, que outra não conheceu.

as minhas começaram a surgir, poucas mas fundas como as dores que tive.

regresso ao rio. o sol hoje está estranho, encoberto, bisonho. não há muitos ruídos de insectos nem de aves.


Andy Ilachinski

o calor, no entanto, mantém-se. também eu trago um pão e um queijo para o caminho. foi-me dado. dura muito este pão mas é pesado. há beira rio há poejos. quando me der a fome faço uma açorda antes que os ovos, que aceitei receber, se façam em gemada e estraguem tudo.

leve de uma noite bem dormida, respiro fundo. o rio não espelha o céu. as pedras parece que flutuam por não se ver à transparência o fundo de água. não arriscarei mergulhar aqui.


Katharina Niemeyer

poiso a mochila. sento-me direita. costas com o tronco exposto de um sobreiro. sinto a seiva passar por ele e em mim, correr da terra para o meu sangue e dar-me força nova. todas as minhas dúvidas e inquietações parecem ter sido devolvidas à terra pelas raízes da árvore.

e eu amo o barro quente da planície como se amasse um homem.


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