de Stefan Duncan Gallery

29.8.06

o avô.

olhar a vida de frente. aprendi cedo. nasci tímida mas determinada. não era qualquer vento que me iria afastar, uma nesga que fosse, do caminho a seguir.

magda marczewska

no vento soava a voz distante do avô. - um homem faz o que tem de fazer- falava pouco mas sabia muito. dorido o seu saber feito de guerra de Espanha, de cabo de charrua, de correr herdades a cavalo depois e de cegueira.

- como foi avô? como cegou? - a infância é curiosa sempre.

- nada de mais, uma falha de enxada que saltou ao bater numa pedra e me entrou para a vista. se fosse agora... mas naquele tempo... o patrão ainda quis que eu fosse operado mas não havia já nada a fazer - a voz entristecia um pouco, um pouco só.

- o avô vem com a gente ao rio hoje, não vem? é páscoa.

- vou mas levo o burro. assim se cansares esses caniços ponho-te lá em cima e ele leva-te que conhece o caminho.

at naturehaven

tinha sido homem temido, o avô. as histórias reais da sua vida, muitas vezes me deram força para enfrentar injustiças estrada-vida fora.

o vento atirou-me areia para os olhos, foi só isso. acelero o passo na busca de uma sombra, a frescura do som de água já não basta para esquecer o brazeiro do sol alentejano.

dan heller

aqui está-se melhor. as árvores parecem querer mergulhar os ramos para se refrescar. tiro a roupa e atiro-me para a água, depois de me certificar que não me engano com a fundura do rio neste lugar. nunca vou nadar bem. o meu lado de bruxa só surge se mergulho e posso ver o fundo. o fundo do rio, o fundo da vida, o fundo das gentes.

seco fácil ao vento. ganho o ar acastanhado de camponesa ou de cigana de olhos verdes, se uso roupa comprida. vou dormir uma sesta e caminhar mais pela tardinha.

a avó? da avó lembro as mãos ásperas os múrmúrios críticos a "estes tempos!" e o luto quase perpétuo por filhos, primos, irmãos, pessoas que não conheci. nunca hei-de usar luto.

*Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs.

- não tenhas medo do lacrau, filha. só tens de ter cuidado para não o pisar. ele não quer saber de ti para nada.

a voz do avô adormece-me, trazida pelo vento suão, lá do espaço distante, do tempo ou do milagre de ter memória ainda.

* Eugénio de Andrade.(excerto)


Comments:
:)

Os avós! Não são esses que nos dão as raízes? A mim foram!

Encantada, encantada, encantada!!!!
 
P.S - (tímida?)
 
Bem...bem...minha querida, ler-te é um delicioso processo de emoções, faço-o mais do que uma vez...


Mágico beijo
 
...no correr de mais um dia, chuva de lembranças, saudade, vieram dançar nos lagos uma valsa de bonança...

Mágico beijo
 
há uma enorme doçura e encanto nas palavras envoltas em mágicas memórias.

bem haja!
 
Os avós... Não me lembro.
Lindo texto, emocionou-me!!!
Bjs
 
também por aqui o apurado bom gosto :)

um texto maravilhoso embalado por esta sonoridade que apela à meditação.
 
Teresa, Mago,Al-jib,Girassol, Efemerum, hoje perdoem agradecer em grupo mas o tempo é curtinho para o muito por fazer e quero visitá-los mais tarde, por isso escolhi assim.

Os meus comentadores são poucos mas do melhor que há na blogo-esfera nacional :)

Beijos e vão voltando. Obrigada :)
 
gostei de te lêr especialmente por me fazeres lembrar os meus avôs
e depois por esse escoar de ... tudo

gostei muito

:)
 
saudades encantadas a magia de ser neta, memso tendo muitas saudades :)
 
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