de Stefan Duncan Gallery

28.8.06

manhã de vento suão

from mnartists

desperto e ergo-me rápido. em criança tinha medo do vento até ele começar a assobiar-me na cabeça mais um poema, longo, cantante, numa cadeia de palavras que só o vento podia juntar, ou um poeta.

*( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)

aqueço água , sei que este ano pode voltar a usar-se sem a ferver horas a fio. entristeço ao lembrar que deixam adoecer a água do meu rio a ponto de não servir para beber.
faço um café à velha maneira da avó. bebo-o num púcaro guardado desde há anos. tenho essa mania: guardo coisas absurdas.

guardo tudo o que não vale nada: penas, pedras, conchas, folhas de árvore, bagas secas e púcaros... sei lá! tralhas mágicas da minha vida interior.

mudo de casa, dou quase tudo mas guardo o para os outros inútil e indispensável ao meu sobreviver com história.
bebo café com bolachas de aveia.

-isso é biscoito de cão - dizem alguns. não me importa, não gosto de doces, quase nada. gosto de um pequeno almoço simples de pão com manteiga mas, não tenho pão fresco.


kevin thom


uma semente vem com o vento, desliza no ar à minha frente.

continuo a sorver o café e a assobiar cá dentro a "toada de portalegre" cem vezes dita vida fora.

*Como é que o vento suão

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

Dói nos peitos sufocados,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão,

Me trouxe a mim que, dizia,

Em Portalegre sofria

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for,

Me trouxe a mim essa esmola

Esse pedido de paz

Dum Deus que fere ... e consola

Com o próprio mal que faz?


quando haverá poesia sem sofrimento? penso.

nunca, como com outra arte. quem vive a vida em branca nuvem não precisa de forma de expressão superior.

repego a mochila. sigo o curso do rio. é preciso aproveitar a manhã que o vento traz calor, dia adiante.


*José Régio

Comments:
Nunca tive medo do vento, nem em pequena :) já do sofrimento a conversa é outra...

a poesia...

e cada vez a gostar mais do que leio :)

(também já segui de mochila mas primeiro vim ler eheheh)
 
Sopro esta brisa que dissipa um longo e frio nevoeiro, tapando tudo, cobrindo tudo...já nem vejo a lua...

Doce beijo feiticeira
 
ah não ,minha querida!
.
.
.
permita-me que discorde ,totalmente ,de si
.
.
a poesia não requer, obrigatoriamente, sofrimento
.
o século da Florbela Espanca - com todo o respeito por que gosta deste género de poetar - e do belíssimo Mário Sá Carneiro, por exemplo ,passou
.
.
.
e a Poesia sempre foi o ar que os deuses respiraram e respiram ,e ,estes ora estavam e estão alegres ,tristes ,felizes ,brincalhões ,magoados ,zangados ,furiosos ,danados ,amorosos ,chorosos ,cantantes ,ridículos ,etc ,etc.

ah! os deuses e nós!

um beijo
 
Lindo tudo o que li...Suave...
Tempo de paz.
Até cheirei o café...Das bolachas gosto mais doces...
Bjs
 
(aqui dorme-se?)
 
"quem vive a vida em branca nuvem não precisa de forma de expressão superior."

Concordo contigo. A poesia feliz é difícil.
Gosto destes teus textos/peregrinação. **
 
também não gosto de doces - essas bolachas de cão são boas , assim podemos comê-las em conjunto . De manhã não passo sem o café e alguma leitura
 
vim trazida pelo vento...o som mágico do vento e aqui deitei ...a música ...o café quentinho ...também eu vivo seguindo o curso de um rio...prazeirosamente vou ficar na água...com vento a embalar-me a madrugada...e suas palavras à beira do rio.


beijos carinhosos

della-porther
 
pontonoj, elogios vindos de ti são música para quem os lê.

Consigo imaginar-te bem de mochila às costas. Obrigada :)
 
Alquimista é neblina de verão :) rápido se esbatre. O feiticeiro és tu, eu só sou aprendiz.

Beijo :)
 
al-jib, permito tudo, discorda à vontade. :)

Só uma limitaçaozinha para esse tudo, não acredites que sabes de que estilo de poetas gosto. Por exemplo a Florbela, que referes, é uma grande escritora de sonetos que, no entanto, pouco tem a ver comigo.

O resto mantenho ,mas desde a adolescência que não discuto arte, religião e política... para quê?

Bjs.
 
Girassol, ainda bem que te sentes bem por cá. Acredita eu própria gostei de me mudar ;)

Beijo e bom dia.
 
PontoNoJ, aqui às vezes espera-se para responder no fim. Mas lá que o cansaço destre extenso verão me dá um sono tremendo... podes acreditar.

Farta de verão!

Bom dia
 
Avelana, benvinda. As bolachas não são exactamente de cão, são de aveia e são para humanos mas há quem as ache duras e dai...

Mas com café são óptimas e lembram sabores bons.

Volta sempre
 
Della sua arredia, esses fusos horários...

Bem, o vento trouxe-te, ainda bem.

Obrigada, Menina.

Beijos.
 
Vida de Vidro, o teu nick diz tudo...

Poiis é isso exactamente o que penso. A felicidade não anula o talento mas reduz a necessidade dede produção artística, de laguma sobretudo, neste caso a poesia.

Seria curioso averiguar a história da maioria dos Poetas, o P não é por acaso. É que poesia a granel é o que mais se lê mas, POESIA... é mesmo um outro filme.

Beijo.
 
Só agora vi as gralhas que postei à noite, a minha luz em casa é propositadamente indirecta, desculpem.

:) Boa tarde.
 
Não era o comentário do comentário que queria. era o resto da história :)
 
o vento não me mete medo, gosto de o ouvir e de o sentir quando é possível.

já me mete mais medo as palavras, pois depende da forma como são ditas ou escritas e tudo pode alterar ou mudar.

gostei muito

:)
 
É a palavra é uma arma.

:)
 
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