20.3.07
fim
fui caminhando por caminhos brandos. suavizei muitas vezes a memória da dor. outras lembrei do mal apenas o amor que, por sorte, os deuses permitiram.
depois cansei. como cansam os velhos. não uso anti rugas. tenho espelhos. sei a vida que passou fora e dentro de mim.
a beleza da paz que às vezes me trazia aqui: rios, aromas, pão quente, avô, aves e terra, esvaíram-se no tempo.
há defiladeiros no caminho. desses não vou falar porque estrangulam. cercam. inibem a respiração e a palavra. esses vou percorrê-los sozinha.
ninguém tem mais direito à dor que o dolorido. e o direito a privar os outros do espectáculo de a ver.
vou-me por entre rochas sem sentires.
com um sorriso trágico, ao meu jeito, digo daqui à minha nova amiga:
- obrigada dor, por me seguires!
14.3.07
asas ao alto
as minhas asas altas afastam-me dos sons que sobressaltam. tenho as penas replectas de palavras.
sacudo-as no subir. as palavras têm peso. cairão na subida. sobrará o silêncio apetecido.
as minhas asas não me fazem voar. são elas altas quais pirâmides de almas (penadas almas?).
no alto delas deito-me debruçada a ver o mundo em tamanho pequeno. é tão bonito!
se o mundo fosse realmente assim vivia nele. nunca teria pensado em deixá-lo para estar onde estou.
mas deixei. porque o mundo não é o que parece. nunca. o mundo simplesmente não é. que ilusão de ser demos ao mundo!
lá em baixo nas vidas verdadeiras (irreais), mexem-se lábios, braços, pernas. quase se vê o mover dos cérebros confusos.
daqui não oiço nada. daqui não sinto nada. não sofro. não amo. não ajo. não reajo.
aqui não tenho de fingir ser nada. aqui o vazio da liberdade. sim, a liberdade é um espaço vazio.
de almas (penadas?) cheio. de verdades sem terem de ter voz ou ser ouvidas. a liberdade não tem quem a queira escutar.
a liberdade existe lá em cima. à altura das minhas asas altas. despida de palavras. sacudidas que foram no subir às pirâmides de almas (penadas almas de verdade feitas?)
17.2.07
ococidade, Carnaval e Francisco de Assis
venha de lá a quaresma. se começou porque havia de parar? de carnaval estou eu a saturar.
* de um poema de José Fernandes Fafe
15.2.07
primaveras em perigoso nevoeiro.
12.2.07
12 de Fevereiro
Erosion_by_zRy03os opostos atraem-se. é uma lei natural. só pode ter sido isso o que se deu connosco.
mas para que penso eu isto? quando o que tenho a fazer é seguir o meu caminho. só. depois de ti. depois de cumprido um simples ritual. sou dada a isso. e hoje, vencidas as defesas do psiquismo, lembrei-te em dia certo, Homem do Mar.
apresso o passo. com um peso de menos. o peso de uma flor.
Lilly_by_AnimeMangaGoddess 4.2.07
lastro?
madalena pestana
o vento atirou para um canto as folhas velhas. mortas. não um varredor da câmara. o maior varredor - o vento. piso-as ao passar. têm som de papel envelhecido. cartas limpas de letras que se deitaram fora para nunca haver tentação de as escrever.
sigo. lenta. trago algum peso a mais. ainda. não consegui que o vento varresse dentro a mim. como num chão. terei de ir atirando fora o lastro, de caminho. para não me doerem as costas nas subidas.
pior. pior é também doer deixar o lastro. nem todo ele pesado. nem todo ele morto. como as folhas.
enquanto penso nisto surge uma tonta vontade de me rir. de quê? ora, de mim. é sempre de mim. a cómica da fita! nunca consigo ficar muito tempo zangada com a humanidade. só comigo.
ainda estou zangada comigo e rio-me disso. tão exigente e a caminho da morte... estupidez!
quem cá ficar que feche a porta dos sonhos se eu a deixar aberta. para quê esta mania de perfeição nos actos. no interagir. nas relações?
depois. depois serei mais uma folha seca com som de papel em dia de sol e nada mais. ou nem isso. nem isso.
agora sim. começo a rir à gargalhada.
olha azedas ali! vou trincar-lhes os caules. é vício de criança. e perco este sabor do que me deixou a boca adocicada.
coisas de quem, por distracção, andou para aí, quem sabe, apaixonada.
30.1.07
calmamente, regresso.
madalena pestana
e não tinha mais nada que contar. parei no meu recanto. não gosto da cidade mas habito-a há tempo demais para lhe esquecer o caminho de regresso.
parecia ter esvaziado a solidão interior que me levara à caminhada de gigante com passos de menina. assim não foi. pareceu. pareceu apenas.
há ilusões de óptica e outras ilusões. pior é quando já não sabemos iludir-nos. a mim a ilusão faz falta. ainda que seja breve. ainda que lhe conheça o nome o odor a forma até. mas deixo-me ir. sabe tão bem como deixar-se a gente levar por uma onda se sabemos nadar.
hoje, desço ao jardim, a despedir-me da árvore que vi nascer, a araucária. ali á beira banco. nem imagino como irá crescer. afago-a. é o meu jeito. digo aquele até logo, de quando me despeço de um amigo e nem olho para trás.
esperam-me os meus caminhos. pedras. rios. memórias e, quem sabe, ainda uma outra ilusão para me fazer parar.
depois. depois eu venho aqui contar.
5.12.06
deixo-vos com um rio alentejano
tanto caminho ainda por andar! só não tenho nada mais para contar.
até um dia.
fui feliz aqui. oiçam a água e quando chover, aprendam a sorrir-lhe.
fiquem bem!
Obrigada.
3.12.06
feliz Natal.
White Crow
"era uma vez um menino que nasceu igual a todos. depois começou a pensar e pensou diferente e fez-se um homem bom. um dia crucificaram-no por pensar diferente. fim."
é quase tudo o que me sobra da história do menino Jesus que me dava presentes no Natal porque ele fazia anos.
hoje parto de novo. caminho do deserto. só lá não há centros comerciais e compras e famílias que se unem e desunem e homens de barrete encarnado e muitas luzes cansativas. e tantas tantas cruzes com homens pregados nelas só à espera que a morte os venha libertar.
no deserto talvez esqueça o Natal.
mas mesmo assim, narra ainda a história desse homem, há tentações por lá.
29.11.06
tu, nevoeiro.
Keith Levit 27.11.06
segunda feira
respiro fundo. não sei a minha idade. nunca sei. sei a data em que nasci. apenas isso. sei também que o futuro é uma mentira agradável de ouvir e nada mais.
respiro fundo como se fosse jovem e tivesse a vida inteira pela frente.
não é de hoje o esquecer-me da idade. há dias em que me sinto tão adolescente que era capaz das mais impensáveis paixões. por isso escrevo. para não cair nelas.
vivo quase escondida. de ninguém. do risco de sentir demais como era dantes.
envelhecer não incapacita em nada o sentimento ou a intensidade dele. só nos traz a prudência se a quisermos ter.
que absurdo ser prudente à beira morte! tenho de rever isto.
afinal hoje é segunda feira. dia de começar a ver tudo melhor.
26.11.06
foi-se o nosso Surrealismo.

foto tirada do blog Catedral
Uma certa Quantidade
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
Mário Cesariny
...................................................
Adeus , meu Caro. O luto pelos Poetas não tem lágrimas.
MP
23.11.06
tempestade
se tiverem de escrever alguma coisa sobre a minha campa ou o vento que levar o pó escrevam: morreu farta de ver não ser!
respiro fundo. a tempestade veio. hoje sinto-me eu.
21.11.06
uma cidade. de três.

Boris Kester
os homens que carregaram as pedras dos castelos não sabiam a alegria com que caminharíamos sobre elas.
o clima adaptou-se aos citadinos. está um chove-não-molha impressionante. mau para os nervos de quem ama o irracional e o intenso.
por isso vim aqui. de salto raso. não para lembrar. pois se nunca esqueci. se nunca esqueço.
chovia e o meu pai partiu. por esta altura. chovia e tu partiste. mais cedo no tempo mais tarde no inverno. época das partidas. mas pelo menos, chovia!
cheguei no mesmo mês. que faço agora? os nervos estilhaçam e o clima é citadino hoje...
não posso apagar o mês do calendário e trazê-los de volta.
afago as pedras do castelo. nas pedras fica tudo. ainda que frias guardam história e histórias. como se fossem um cofre quente de coração de gente.
afago as pedras. anoitece. eu deixo de ter cor. assemelho-me a elas.
estou a sorrir, amor. como nos dias das sabrinas saltitantes. estou a sorrir.
para ti.
20.11.06
a fernanda dias a minha lucky e
" lucky" foto MP19.11.06
hoje, só eu comigo.
Siri Knutsen16.11.06
pausa no caminho.
13.11.06
hoje arrefeceu
Andrey Vahrushewestá um daqueles dias de chuva por cair. são os que gosto menos.
vou fazer uma sopa para me aquecer. sopa de feijão com hortaliça e azeite alentejano. um naco de chouriço porque gosto de o comer no fim. ou no meio, tanto dá.
gosto de sopa. sempre gostei.
- come isso rapariga. olha que nem que eu passe aqui o dia todo sais daí sem comer!
tu fazes de propósito? queres adoecer ou dar cabo de mim?
aquela voz! aquela voz ressoa se me sento à mesa. ainda hoje. por isso invento sítios para comer. tudo menos sentadinha à mesa. nessa obrigação de comer tudo senão morro. à mesa não!
mas ela não parava. eu sabia isso por demasia. antes tinha ela começado a cantar: "vento não batas à porta..." e sempre que cantava isso ensaiava o vendaval do almoço ou do jantar. à mesa. sempre à mesa.
por isso faço sopa à beira rio. como sobre uma pedra. que bom é!
com o correr das memórias e das águas, vai-se a voz torturante:
- come rapariga! queres dar cabo de mim?
é boa a minha sopa. a dela também era. com ela a aprendi.
que pena não ter ela aprendido a amar ou, de pequena, ter aprendido o lugar onde começa e acaba o arco-íris.
e é tão fácil! está ali mesmo. ao alcance da mão.
a talhe de foice
ou simplesmente porque sim, lembrei-me como tudo aconteceu.
Keith Levit. não tinha saído como a concebera a mãe. isso já eu contei num post abaixo. e à irmã, que ela desconhecia agora, tinham ensinado a não-brincar. que é como se devia ser menina.
onde andará cada uma?
* excertos de poema de Mário Cesariny
da cor que a Della gosta
12.11.06
coisas que me ocorrem.
Paulo Azevedode dia caminho à toa com o olhar aberto.
hoje vi uma árvore caída. pela raíz. não morrera de pé. arrancara-a da terra materna o vento e a idade.
também eu arranquei um dia. teve de ser para a mulher que sou sobreviver.
é a diferença profunda entre os seres móveis e os imóveis. podemos fugir dos ventos e dos colos insalubres.
10.11.06
com carinho.
vou estacionar o cérebro em qualquer lado se conseguir um lugarzinho por aí. volto segunda.
fica uma flor selvagem a laia de voto de bom fim de semana.
fiquem bem.
beijos.
9.11.06
um beijo, Pai.
Andrey Vahrushewmas durante esse tempo, o desenhador adoeceu. gravemente. ela, a fabricante de máscaras que não as desenhava, teve de tratar do desenhador e dar lustro a outra máscara que já a compensava e ainda, estar atenta ao forno, não fosse a máscara pegar, cozer demais e ficar quebradiça.
7.11.06
dois dias antes aconteceu pensar.
está sol, mas acordou comigo uma mágoa sem nome. feita de passados. terei sonhado mal ou é a proximidade do meu aniversário a lembrar-me que não fui bem acolhida na chegada?
pelo menos pela mãe. queria um rapaz. coitada! querer mandar no destino sempre foi a ambição do ser humano. nessa altura não havia ainda forma de prever. teria eu nascido se a houvesse?
eles estavam primeiro. rapazes. rapariga. diferença no amar? nem a sei conceber.
solto uma gargalhada. deviam ter dado uma boneca à minha mãe para ela fazer vestidinhos e por laços no cabelo. deram-me a mim. e eu nem sequer usava os laços com orgulho. prendiam-me os cabelos...
Michael Schaafse calhar nunca teve uma boneca e logo saí eu, com cara disso mas comportamento a negar todas as previsões...
chega! tantas teias de aranha ainda carrego na memória! é hora de as limpar.
e sim: obrigada mãe pelo esforço de parir-me e me criar.
o céu, pode.
piso e tropeço em ramagens caídas. natureza morta que ninguém quer pintar.
escorrem ainda as águas dos barrancos. atolo os pés no barro de que sou feita segundo a história do livro mais vendido no mundo.
dou comigo a sorrir desta raiva dos céus.
Detlef Lampe
como seria bom ter eu uma fé dessas que não questiona nada.
tentei. não consegui. tropecei na igreja. a tal. a instituição. e não a consegui ultrapassar.
quanto à fúria do céu, toda ela água - enquanto eu vir uma criança com fome ou um adulto a dormir ao relento por mais não ter. nem uma mão amiga. digo daqui: o céu que se rebele porque eu perdi a pressa que já tive.
o céu pode esperar!

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