de Stefan Duncan Gallery

20.3.07

fim

canyon jon wilkin


fui caminhando por caminhos brandos. suavizei muitas vezes a memória da dor. outras lembrei do mal apenas o amor que, por sorte, os deuses permitiram.

depois cansei. como cansam os velhos. não uso anti rugas. tenho espelhos. sei a vida que passou fora e dentro de mim.

a beleza da paz que às vezes me trazia aqui: rios, aromas, pão quente, avô, aves e terra, esvaíram-se no tempo.

há defiladeiros no caminho. desses não vou falar porque estrangulam. cercam. inibem a respiração e a palavra. esses vou percorrê-los sozinha.

ninguém tem mais direito à dor que o dolorido. e o direito a privar os outros do espectáculo de a ver.

vou-me por entre rochas sem sentires.

com um sorriso trágico, ao meu jeito, digo daqui à minha nova amiga:

- obrigada dor, por me seguires!


14.3.07

asas ao alto

from Eagle Pictures


as minhas asas altas afastam-me dos sons que sobressaltam. tenho as penas replectas de palavras.

sacudo-as no subir. as palavras têm peso. cairão na subida. sobrará o silêncio apetecido.

as minhas asas não me fazem voar. são elas altas quais pirâmides de almas (penadas almas?).

no alto delas deito-me debruçada a ver o mundo em tamanho pequeno. é tão bonito!

se o mundo fosse realmente assim vivia nele. nunca teria pensado em deixá-lo para estar onde estou.

mas deixei. porque o mundo não é o que parece. nunca. o mundo simplesmente não é. que ilusão de ser demos ao mundo!

lá em baixo nas vidas verdadeiras (irreais), mexem-se lábios, braços, pernas. quase se vê o mover dos cérebros confusos.

daqui não oiço nada. daqui não sinto nada. não sofro. não amo. não ajo. não reajo.

aqui não tenho de fingir ser nada. aqui o vazio da liberdade. sim, a liberdade é um espaço vazio.

de almas (penadas?) cheio. de verdades sem terem de ter voz ou ser ouvidas. a liberdade não tem quem a queira escutar.

a liberdade existe lá em cima. à altura das minhas asas altas. despida de palavras. sacudidas que foram no subir às pirâmides de almas (penadas almas de verdade feitas?)


17.2.07

ococidade, Carnaval e Francisco de Assis

Lucky - wondering... - It is 14 February . Is she in love, too?

madalena pestana - neste carnaval

não. não está no dicionário a palavra mas é um estado, melhor, uma qualidade que existe em certos seres. a qualidade de ser oco. oco mesmo. vazio de conteúdo e de pensar, se for o caso humano.

este carnaval, e ainda bem que o é para levar isto a rir, acordei a pensar esta palavra para definir o estar de alguém que me afrontou. quero desvalorizar o sucedido. se consigo não sei. verei na quarta feira. entretanto, que siga o carnaval!

mas enquanto pensava, sou muito dada a isso, lembrava ter-lhe olhado os olhos, faço-o com toda a gente, e ter ido bater direito ao crâneo. pum! nada dentro.
com aquela sensação de vazio que dá no estomago quando se desce na montanha russa, fiquei nauseada. não volto a olhar.

pensando isto, dizia, oiço o piar de um melro macho dentro à casa. nada de espantar, distingo bem. devia ser novato para entrar assim, não conhecia a Lucky , ou então confundiu-nos - ela hoje mascarou-se de mim.

saí de onde estava e ele voou para a sala em alvoroçados sons e bateres de asa. camuflou-se no carvalho das estantes. a Lucky, com pés de caçadora seguia-o e salivava. por antecipação.

fechei na rua a minha amiga. escancarei todas as janelas e olhámo-nos eu/melro, num velho entendimento terra-céus. voou. oco-cidade fora.

pensei em Francisco de Assis, o único santo que conheço. - é, irmão Francisco, hoje um melro, "desprega-me da cruz".*

mas o carnaval vai passar e eu voltarei a ter de conviver di-a-ri-a-men-te com a ococidade. presente que me deram como penitência de quaresma. só porque sim. ou para me vencer pelo cansaço e tomar a decisão de me reformar.

não vale a pena. venho de duras resistências outras. não entro em estado oco por tão pouco.

venha de lá a quaresma. se começou porque havia de parar? de carnaval estou eu a saturar.




* de um poema de José Fernandes Fafe

15.2.07

primaveras em perigoso nevoeiro.

photo by Amit Kulkarni

não faço a pé todo o caminho. há frio, chuva, nevoeiro. há percursos mais difíceis de fazer quando é inverno.

do que é inverno eu sei. há quem chame outono a este meu estar. não eu. passo por primaveras e sei vê-las. admiro-as. abro mais o sorriso e sigo em frente. não se pode tocar a primavera alheia sem o risco de a contaminar com invernias nossas.

não passamos pela vida em branca nuvem. sem moléstias. somos como árvores. guardamos cicatrizes. visíveis umas. outras sensíveis só. mas se enlaçarmos os ramos num ramo de outra árvore em frescura de começo, há contágios impossíveis de evitar. daí que as olhe apenas. como quem contempla a primavera. e siga sempre.

a minha primavera? existiu, e porque a respeitaram eu cresci.

vou pensando, à medida que invado a espessura do nevoeiro. ao ritmo do rolar do autocarro. numa subida da invernosa descida desta vida que já sou .

12.2.07

12 de Fevereiro

Erosion_by_zRy03

hoje passo pelo mar, Homem. não costumo lembrar senão depois. depois de não saber o que me pôs a alma em turbulência triste. sempre depois. escondendo-me de mim. o meu psiquismo lá me vai defendendo da verdade. não estás. não te espero. não voltas. nunca. é engraçado que digam a velha frase “nunca digas nunca”. há tanto tempo a digo por gente demais. trago uma flor branca para atirar ao mar. não a ofereceria se estivesses. não eras dado a flores. sabe-se lá porquê. talvez pela mesma razão que te levava a ouvir Bach e a mim Beethoven. em comum? em comum os olhos claros capazes de olhar dentro. pouco mais.

os opostos atraem-se. é uma lei natural. só pode ter sido isso o que se deu connosco.

mas para que penso eu isto? quando o que tenho a fazer é seguir o meu caminho. só. depois de ti. depois de cumprido um simples ritual. sou dada a isso. e hoje, vencidas as defesas do psiquismo, lembrei-te em dia certo, Homem do Mar.

apresso o passo. com um peso de menos. o peso de uma flor.

Lilly_by_AnimeMangaGoddess


4.2.07

lastro?

folhas mortas ao sol do meio dia


madalena pestana

o vento atirou para um canto as folhas velhas. mortas. não um varredor da câmara. o maior varredor - o vento. piso-as ao passar. têm som de papel envelhecido. cartas limpas de letras que se deitaram fora para nunca haver tentação de as escrever.

sigo. lenta. trago algum peso a mais. ainda. não consegui que o vento varresse dentro a mim. como num chão. terei de ir atirando fora o lastro, de caminho. para não me doerem as costas nas subidas.

pior. pior é também doer deixar o lastro. nem todo ele pesado. nem todo ele morto. como as folhas.

enquanto penso nisto surge uma tonta vontade de me rir. de quê? ora, de mim. é sempre de mim. a cómica da fita! nunca consigo ficar muito tempo zangada com a humanidade. só comigo.

ainda estou zangada comigo e rio-me disso. tão exigente e a caminho da morte... estupidez!

quem cá ficar que feche a porta dos sonhos se eu a deixar aberta. para quê esta mania de perfeição nos actos. no interagir. nas relações?

depois. depois serei mais uma folha seca com som de papel em dia de sol e nada mais. ou nem isso. nem isso.

agora sim. começo a rir à gargalhada.


olha azedas ali! vou trincar-lhes os caules. é vício de criança. e perco este sabor do que me deixou a boca adocicada.

coisas de quem, por distracção, andou para aí, quem sabe, apaixonada.


30.1.07

calmamente, regresso.

I saw the gardener planting this tree.

madalena pestana

e não tinha mais nada que contar. parei no meu recanto. não gosto da cidade mas habito-a há tempo demais para lhe esquecer o caminho de regresso.

parecia ter esvaziado a solidão interior que me levara à caminhada de gigante com passos de menina. assim não foi. pareceu. pareceu apenas.

há ilusões de óptica e outras ilusões. pior é quando já não sabemos iludir-nos. a mim a ilusão faz falta. ainda que seja breve. ainda que lhe conheça o nome o odor a forma até. mas deixo-me ir. sabe tão bem como deixar-se a gente levar por uma onda se sabemos nadar.

hoje, desço ao jardim, a despedir-me da árvore que vi nascer, a araucária. ali á beira banco. nem imagino como irá crescer. afago-a. é o meu jeito. digo aquele até logo, de quando me despeço de um amigo e nem olho para trás.

esperam-me os meus caminhos. pedras. rios. memórias e, quem sabe, ainda uma outra ilusão para me fazer parar.

depois. depois eu venho aqui contar.


5.12.06

deixo-vos com um rio alentejano

Ardila - foto tirada de www.parquenoudar.com


tanto caminho ainda por andar! só não tenho nada mais para contar.


até um dia.


fui feliz aqui. oiçam a água e quando chover, aprendam a sorrir-lhe.


fiquem bem!


Obrigada.


3.12.06

feliz Natal.

mark carpenter


como a criança que se sente só no gigantesco parque bem cuidado e sonha em sair o portão e ver o mundo, sonho eu em sair o natal. todos os natais de há muitos anos já.
tento sair pela imaginação. não consigo por mais que me esforce. imaginei tanto em nova que perdi o poder de imaginar?

White Crow

"era uma vez um menino que nasceu igual a todos. depois começou a pensar e pensou diferente e fez-se um homem bom. um dia crucificaram-no por pensar diferente. fim."

é quase tudo o que me sobra da história do menino Jesus que me dava presentes no Natal porque ele fazia anos.

hoje parto de novo. caminho do deserto. só lá não há centros comerciais e compras e famílias que se unem e desunem e homens de barrete encarnado e muitas luzes cansativas. e tantas tantas cruzes com homens pregados nelas só à espera que a morte os venha libertar.


by Simon Lyutakov

no deserto talvez esqueça o Natal.

mas mesmo assim, narra ainda a história desse homem, há tentações por lá.


29.11.06

tu, nevoeiro.

by_ssuunnddeeww

de costas para a neblina que te encobre sinto-te no ar. por todo o lado.

que é isto que me ocorre se mal te sei o rosto já?

que brincadeira tola do destino ou que festa ou que hino à vida que ainda há?

e sei que nem vou ver-te. nem tocar-te. e sei que tu não sabes o que sinto nem nunca to direi. e rio-me disto tudo como de uma novela apatetada de TV. e, no entanto, sinto!

e é tão bom sentir o que ora sinto como deve ser para a árvore sequiosa debruçar-se num rio até quase cair.

e mesmo sem saberes a intensidade deste espanto e sem saber eu ou querer, cair em mim, sinto-te e caio em ti!

Keith Levit


27.11.06

segunda feira

Andrey Vahrushew

respiro fundo. não sei a minha idade. nunca sei. sei a data em que nasci. apenas isso. sei também que o futuro é uma mentira agradável de ouvir e nada mais.

respiro fundo como se fosse jovem e tivesse a vida inteira pela frente.

não é de hoje o esquecer-me da idade. há dias em que me sinto tão adolescente que era capaz das mais impensáveis paixões. por isso escrevo. para não cair nelas.

vivo quase escondida. de ninguém. do risco de sentir demais como era dantes.

envelhecer não incapacita em nada o sentimento ou a intensidade dele. só nos traz a prudência se a quisermos ter.

que absurdo ser prudente à beira morte! tenho de rever isto.

afinal hoje é segunda feira. dia de começar a ver tudo melhor.


26.11.06

foi-se o nosso Surrealismo.

foto tirada do blog Catedral



Uma certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny

...................................................

Adeus , meu Caro. O luto pelos Poetas não tem lágrimas.


hossein farahani

MP


23.11.06

tempestade

Geraint Smith


e chega a tempestade. dentro e fora de mim. de onde partiu primeiro? não. não quero saber. só sei que veio e me atira ao vento e à chuva e os dois de encontro ao meu corpo sequioso de sensações mais fortes que as palavas.

as palavras são boas companheiras quando não há mais nada. mas hoje há. há este cheiro forte a água a negro a futuro e passado misturados nas mesmas poeiras que a chuva arrasta para bem longe de onde vagamente consigo por os pés.

ah que força tem o clima nos meus nervos que eram franzinos porque assim os queriam e se fizeram de aço, ainda quebradiço, porque assim os tranformaram à revelia de mim!

eu quero é ter nervos de bambú, ondulante que vagueiem oscilem mas não quebrem. deixem escorrer a água pelo eixo de si em direcção à terra e se sacudam com uma rajada nova prontos para a que vier logo a seguir.

eu sou assim. já não porque me fazem mas porque assim é feita a minha alma - de tempestade e bonanças passageiras só para aliviar.

que farta estou das almas comedidas e dos sentires pequenos!
farta até dos deuses cheios de uma bondade que até agora não serviu para nada. nem para impedir crianças de morrer a metralhadora fome e violação.

farta! farta de hipocrizia e aceitação do que não tem nem nunca teve de ser assim!

se tiverem de escrever alguma coisa sobre a minha campa ou o vento que levar o pó escrevam: morreu farta de ver não ser!

respiro fundo. a tempestade veio. hoje sinto-me eu.


21.11.06

uma cidade. de três.

by_complejo

sem o andar ligeiro e as saias rodadas que me faziam ser menina e moça. mas as cidades são ainda três e os castelos, os que percorremos. mato a saudade de ti em cada canto.



Boris Kester

os homens que carregaram as pedras dos castelos não sabiam a alegria com que caminharíamos sobre elas.

o clima adaptou-se aos citadinos. está um chove-não-molha impressionante. mau para os nervos de quem ama o irracional e o intenso.

por isso vim aqui. de salto raso. não para lembrar. pois se nunca esqueci. se nunca esqueço.

chovia e o meu pai partiu. por esta altura. chovia e tu partiste. mais cedo no tempo mais tarde no inverno. época das partidas. mas pelo menos, chovia!

cheguei no mesmo mês. que faço agora? os nervos estilhaçam e o clima é citadino hoje...

não posso apagar o mês do calendário e trazê-los de volta.

afago as pedras do castelo. nas pedras fica tudo. ainda que frias guardam história e histórias. como se fossem um cofre quente de coração de gente.


Fabio Keiner

afago as pedras. anoitece. eu deixo de ter cor. assemelho-me a elas.

estou a sorrir, amor. como nos dias das sabrinas saltitantes. estou a sorrir.

para ti.


20.11.06

a fernanda dias a minha lucky e

" lucky" foto MP


a minha saudade de Alentejo, fizeram-me ganhar o único prémio blogueiro, no (tinha de ser num que não fosse, lol) : Um blog a fingir que é.


obrigada a quem teve tal ideia. amanhã vou espreitar de onde veio e como.

19.11.06

hoje, só eu comigo.

Siri Knutsen

hoje não há paisagem que me sirva. nem verso que dissesse. nem corpo que soubesse desejar.

hoje a verdade sou eu e acabou.

a verdade é inventar uma flor e apontá-la ao céu como uma arma.

hoje a verdade sou eu e a minha loucura. o meu não aceitar que os certos são os outros. e porque haviam de ser?

tantas verdades me contaram desde que nasci e vi desmentidas, de caminho, pela prática penosa do viver!

não. hoje não tenho nada inspirado para contar. nem profundo. nem memórias sequer. porque hoje só estou eu e a cadela que me dorme ao lado.

fechei a porta e só a mim deixei entrar no percurso que sigo. mais ninguém.

o raio que me parta e a tantas histórias que devia apagar!

hoje, sobre a pele nua, apenas o amor que fui sentindo até chegar aqui. sem amor não se vive e eu posso não saber mais nada que me valha, mas garanto: amei logo vivi!

e como é bom estar assim quente em meio ao frio, só com o amor para me agasalhar!

16.11.06

pausa no caminho.

Dennis King

não sei quando mas volto.


bom fim de semana ou bom dia a quem passar.



13.11.06

hoje arrefeceu

Andrey Vahrushew

está um daqueles dias de chuva por cair. são os que gosto menos.

vou fazer uma sopa para me aquecer. sopa de feijão com hortaliça e azeite alentejano. um naco de chouriço porque gosto de o comer no fim. ou no meio, tanto dá.

gosto de sopa. sempre gostei.

- come isso rapariga. olha que nem que eu passe aqui o dia todo sais daí sem comer!
tu fazes de propósito? queres adoecer ou dar cabo de mim?

aquela voz! aquela voz ressoa se me sento à mesa. ainda hoje. por isso invento sítios para comer. tudo menos sentadinha à mesa. nessa obrigação de comer tudo senão morro. à mesa não!

a mesa era o espaço de discutir ciúmes.

- só agora? com quem é que foi hoje? outro cliente?

- cala-te Bia. vamos comer em paz. estou morto de cansaço.

mas ela não parava. eu sabia isso por demasia. antes tinha ela começado a cantar: "vento não batas à porta..." e sempre que cantava isso ensaiava o vendaval do almoço ou do jantar. à mesa. sempre à mesa.

por isso faço sopa à beira rio. como sobre uma pedra. que bom é!

está quase tudo igual. por cima a ponte. só não é Páscoa agora. na Páscoa não me aborreciam com comer. na Páscoa namorava e nadava. na Páscoa faziam-se e desafaziam-se namoros. todos os anos. por aqui bem perto.

com o correr das memórias e das águas, vai-se a voz torturante:

- come rapariga! queres dar cabo de mim?

é boa a minha sopa. a dela também era. com ela a aprendi.

que pena não ter ela aprendido a amar ou, de pequena, ter aprendido o lugar onde começa e acaba o arco-íris.

e é tão fácil! está ali mesmo. ao alcance da mão.

Andrey Vahrushew


a talhe de foice

Lucidio Studio

ou simplesmente porque sim, lembrei-me como tudo aconteceu.

*"era uma vez dez meninas duma aldeia muito probe/ deu um tranglomanglo nelas não ficaram senão nove..."

era uma vez... até chegarmos a só duas meninas que até pareciam ser irmãs e brincavam à solta aos domingos nas praias de magoito.

pois.

rapidamente a mais velha deixou de brincar e passou a andar por caminhos já feitos. feitos por medida. feitos para meninas que se querem como as mães as previram conceberam fabricaram.
por medida. a condizer: com os cabelos com os vestidinhos para bonecas com as tranças nunca despenteadas e sem puxões de raparigas ou rapazes.

zero.

e a brincadeira nunca mais voltou.

Keith Levit.

sobrou uma menina que por ser mais nova, não deixava de ver nem de sentir.
tapou os olhos com o verde das coisas como o pai da Antígona arrancou os dele "para não ver mais nada!"

não tinha saído como a concebera a mãe. isso já eu contei num post abaixo. e à irmã, que ela desconhecia agora, tinham ensinado a não-brincar. que é como se devia ser menina.

também lhe ensinaram outras coisas como a ser a melhor e a mentir sempre que fosse preciso salvar a face ou escapar às situações. assim se vence.

a outra era mais lenta e nunca aprendeu. não tinha nascido para ser célebre nem nada. tinha nascido para viver. mas viver tudo. até ao fim. até à cicuta se preciso fosse.

Sami Sarkis

foi assim que a menina que não era esperta, preferiu os caminhos de terra aos caminhos de asfalto e se perdeu no mundo. nunca mais ninguém a viu.

*"era uma vez duas meninas..."


onde andará cada uma?



* excertos de poema de Mário Cesariny


da cor que a Della gosta

Bob Bauer

e em número ímpar porque nunca dou flores em número par.

PARABÉNS DELLA !
SÊ FELIZ! VIVE MUITO E BEM!

Um beijo muito amigo da

Paper-life/weg/ Madalena
srutihari

elee3009





photos-of-the-year




Duane Conliffe

12.11.06

coisas que me ocorrem.

Paulo Azevedo

de dia caminho à toa com o olhar aberto.

hoje vi uma árvore caída. pela raíz. não morrera de pé. arrancara-a da terra materna o vento e a idade.

também eu arranquei um dia. teve de ser para a mulher que sou sobreviver.

é a diferença profunda entre os seres móveis e os imóveis. podemos fugir dos ventos e dos colos insalubres.

Minorhero

à noite, o meu caminho é o de já não ver senão a lua e o pensar.

quem sabe não seria mesmo bom ser como as árvores? soltar a raiz tombar e descansar.

10.11.06

com carinho.

john harvey

vou estacionar o cérebro em qualquer lado se conseguir um lugarzinho por aí. volto segunda.

fica uma flor selvagem a laia de voto de bom fim de semana.

fiquem bem.

beijos.



9.11.06

um beijo, Pai.

Andrey Vahrushew

era uma vez...

há muito tempo já, dois fabricantes de máscaras. um sabia moldar e podia. a outra exigia uma máscara por medida.
puseram-na no forno e a fazedora de máscaras ficou de olho nele. nove meses.

mas durante esse tempo, o desenhador adoeceu. gravemente. ela, a fabricante de máscaras que não as desenhava, teve de tratar do desenhador e dar lustro a outra máscara que já a compensava e ainda, estar atenta ao forno, não fosse a máscara pegar, cozer demais e ficar quebradiça.

Andrey Vahrushew

à hora de abrir o forno, mal podia esperar. tinha pedido ao desenhador de máscaras um arlequim, parecido com ele que, já agora, ela estava convencida que amava. ainda que não fosse essa a sua habilidade maior.

olhou. olhou melhor e ia caindo de costas se não estivesse deitada.

-não é um arlequim!


Andrey Vahrushew

pediu perdão ao desenhador que não a entendeu. olhando a sua obra disse:

- não faz mal é mais bonita que a outra máscara que fizemos juntos. está tudo bem. é uma linda máscara!

a fabricante engoliu a saliva por muitos anos e bons.
mas por mais que a máscara que lhe saíra errada, se vestisse e fumasse como um homem, nada a convenceu. pelo contrário. agora queria que ela se comportasse com uma colombina. porquê não narra a história nem eu sei...

*

bem, nem eu a convenci nem a entendo hoje ainda. mas é um facto incontornável: faz muitos anos, num dia de novembro, neste dia, nasci eu.

usando a máscara que o meu pai me deu.

abençoado homem!

- para ti a flor que tu mereces e já não podes receber. Pai! ou poderás?

Thomas Janik

7.11.06

dois dias antes aconteceu pensar.

at environnement.ecoles

paro para pensar. num banco que sobrou duma árvore cortada. útil até no fim! mais do que eu que pouca utilidade já me vejo.

está sol, mas acordou comigo uma mágoa sem nome. feita de passados. terei sonhado mal ou é a proximidade do meu aniversário a lembrar-me que não fui bem acolhida na chegada?
pelo menos pela mãe. queria um rapaz. coitada! querer mandar no destino sempre foi a ambição do ser humano. nessa altura não havia ainda forma de prever. teria eu nascido se a houvesse?

Martin Munkáfski

lembro quando parei. também para pensar. viúva. três filhos para criar.

tirei a máscara da poesia vida fora.
eles estavam primeiro. rapazes. rapariga. diferença no amar? nem a sei conceber.

já chega de lamentos. tanta pena de mim o dia trouxe!
solto uma gargalhada. deviam ter dado uma boneca à minha mãe para ela fazer vestidinhos e por laços no cabelo. deram-me a mim. e eu nem sequer usava os laços com orgulho. prendiam-me os cabelos...

Michael Schaaf

se calhar nunca teve uma boneca e logo saí eu, com cara disso mas comportamento a negar todas as previsões...

chega! tantas teias de aranha ainda carrego na memória! é hora de as limpar.

e sim: obrigada mãe pelo esforço de parir-me e me criar.


o céu, pode.

Rodney Carlisle

ninguém me ensinou os cantos e os recantos deste caminhar. faço-o à toa como o vento faz.

piso e tropeço em ramagens caídas. natureza morta que ninguém quer pintar.

escorrem ainda as águas dos barrancos. atolo os pés no barro de que sou feita segundo a história do livro mais vendido no mundo.

dou comigo a sorrir desta raiva dos céus.

Detlef Lampe

como seria bom ter eu uma fé dessas que não questiona nada.

tentei. não consegui. tropecei na igreja. a tal. a instituição. e não a consegui ultrapassar.

quanto à fúria do céu, toda ela água - enquanto eu vir uma criança com fome ou um adulto a dormir ao relento por mais não ter. nem uma mão amiga. digo daqui: o céu que se rebele porque eu perdi a pressa que já tive.

o céu pode esperar!


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